Lopetegui e a alma do dragão

Lopetegui e a alma do dragão

1 Num passado não muito longínquo, as equipas jogavam de acordo com o meio em que viviam e segundo a história que as suportava, prova de que o estilo correspondia a uma sensibilidade depurada com o tempo e que acabava por refletir uma cultura de que os adeptos sempre foram os maiores defensores. Agora o tempo é de uniformização e essas comunidades, outrora agarradas a orientações que vinham do berço, são apenas o reflexo de profissionais que falam a linguagem universal do futebol, compostas por executantes brilhantes em todos os parâmetros. Alguns são mesmo fenómenos. O problema é que têm vínculos ténues, alguns inexistentes, aos alicerces dos clubes que representam. Um perigo, porque o adepto gosta de ganhar mas também de ver defendidos os princípios básicos da tribo.

2 Quem vive o futebol nas bancadas jurou fidelidade à bandeira pela memória da infância, pela eterna busca de uma identidade, pela catarse social, pelo desejo de vingança, pela alegria... Julen Lopetegui, como qualquer treinador dos tempos modernos, pode não dar relevância ao risco efetivo de transformar o FC Porto numa armada espanhola no exílio; de escalar equipas sem portugueses e com maioria de jogadores trazidos por si, logo em ano de estreia no Dragão (Fernández, Indi, Marcano, Ángel, Casemiro, Campagna, Óliver, Tello, Brahimi, Aboubakar e Adrián); pode até considerar normal abrir um conflito feio com Quaresma, o mais emblemático jogador azul e branco do pós-Mourinho (a par de Helton e Lucho), sempre convencido de que só seria sufragado pelos resultados. Não é bem assim. Nunca foi.

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3 Lopetegui consolidou a imagem de um líder elegante nas palavras, correto nos atos, assente em conhecimentos e boas ideias. Este FC Porto, sem as bases ideológicas de antepassados, respeita o perfil de potência vigente; alterado o paradigma das raízes, não desvirtuou a genética vencedora e manteve a personalidade; o plantel é riquíssimo, a equipa joga cada vez melhor e a cumplicidade entre comando e comandados aumenta. Nas opções táticas ninguém tem dúvidas quanto ao peso relativo de valores como ordem e entusiasmo; disciplina e liberdade; luta e talento; responsabilidade e risco. Lopetegui sabe que o FC Porto é um clube habituado a ganhar, com ambições internacionais, mas nunca aprofundou a essência de quem se tornou hegemónico em conflito com o Mundo.

4 A epopeia de Braga deveria ter funcionado como a lição de portismo que faltava – o treinador espanhol sentiu o pulsar revoltado de um clube inteiro e foi tocado pela alma que o sustenta. Tudo ali teve dimensão assombrosa: capitão Helton ressuscitado aos 36 anos; o espírito indomável de jogadores transformados em heróis; o clamor da injustiça acentuado pelo presidente orgulhoso; o regresso a casa em glória, como prova de unidade perante a insídia. A batalha da Pedreira foi um desperdício, porque o general e o seu exército não aproveitaram as forças misteriosas da paixão e as réplicas emocionais de uma história também feita de reações extremadas. Nos Barreiros, por estranho que pareça, o FC Porto não aproveitou a embalagem e, em vez de consolidar argumentos na luta pelo título, precisou da derrota benfiquista para se manter a seis pontos do líder.

Futebol órfão de Riquelme

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Chegou ao fim um génio que pensava melhor e mais depressa do que a maioria

Riquelme pendurou as botas aos 36 anos. Parte o último número 10 do futebol, o derradeiro maestro configurado pelos velhos valores: o mais talentoso; o que via mais longe e estava em várias zonas do terreno ao mesmo tempo; o que, por ser tão importante quando tinha a bola, beneficiava de um cordão de segurança para dar sentido à liberdade que a comunidade lhe concedia. Muitos reduziram-no à forma mais simples e indigna: era lento. O futebol fica órfão de um génio que viveu fora de tempo.

De olhos postos em Saleh Gomaa

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Há jogadores que, atuando em palcos menos mediáticos, têm futebol para as grandes salas

Saleh Gomaa tem 21 anos e um talento ilimitado, e escolheu o Nacional como porta de acesso ao grande futebol europeu. Entre o período de adaptação e a quebra da equipa na primeira metade da temporada pareceu sempre globalmente aquém da eloquência das pequenas preciosidades que lhe fomos vendo avulso. Agora que completou a integração e o coletivo parece oleado, estão reunidas as condições para se expressar na plenitude, naquele jeito de quem é íntimo da bola, vê o jogo como se estivesse no primeiro balcão e dá estilo à equipa. Tem futebol para ser uma estrela da Liga.

William Carvalho comanda o leão

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Parte do que sucede no futebol tem a ver com sorte, azar e até com os caprichos da bola

William Carvalho passou por momentos infelizes e houve logo um coro de explicações para essa menor produção: que estava contrariado e a jogar na Champions se notam mais as fragilidades. Os altos e baixos de um jogador são também ditados por ligeiros acertos posicionais e de intervenção no jogo – e só assim se explica que o jovem médio leonino tenha reencontrado tão depressa talento, inspiração e influência. William voltou a ser o denominador comum da equipa. Uma boa notícia para a família verde e branca, no momento em que reentrou na luta pelo título.

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