Luisão no patamar dos imortais

Luisão no patamar dos imortais

1 - Pode não ser um grande jogador, analisado sob os parâmetros de exigência que exaltam a magia instantânea e fazem do futebol um espetáculo assombroso. Mas tem quase tudo o que precisa: liderança, carisma e físico; inteligência, fiabilidade e visão global do jogo; talento para acertar posicionamentos e tomar decisões num abrir e fechar de olhos; responsabilidade e concentração suficientes para cometer um erro estrutural de ano a ano. A essas qualidades, outros ainda agregam classe e brilhantismo; técnica sublime para tratar a bola, conduzi-la em velocidade e colocá-la à distância; talento que permite abrir horizontes e exercer influência em várias zonas do terreno. O defesa não pode é começar pelo supérfluo, sob risco de o efeito ser idêntico à construção de um prédio iniciada pelo telhado.

2 - Na sua autobiografia, Alex Ferguson esclarece dúvidas quando se refere a Nemanja Vidic: “Quantos centrais há hoje em dia que gostam realmente de defender? Vidic gostava. Adorava o desafio de estar lá no meio. Era visível que aquelas disputas de bolas divididas o animavam”. A vantagem de Luisão é precisamente cumprir os requisitos de uma tarefa que exige eficácia e dispensa fantasia. Para lá disso, retira prazer de ações menos artísticas e realiza-se com a fiabilidade quase absoluta que revela na organização de toda a equipa. Não é um génio com a bola, tem aparência rude e pouco estética, mas é quase infalível na abordagem aos lances; no ataque à bola e aos adversários; na defesa do espaço, no jogo aéreo, em todas as decisões que toma e nas ordens que emite.

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3 - Na 11.ª época na Luz, invadiu com êxito o terreno sagrado onde habitam os deuses da lenda encarnada. É o primeiro estrangeiro a garantir lugar nesse patamar de imortalidade, não à custa de talento mas de presença, liderança, regularidade e influência. Cinco anos sob o comando de Jorge Jesus, que lhe confiou a maioria dos segredos táticos da equipa e fez dele um dos grandes centrais que passaram pelo futebol nacional, apetrecharam-no com armas para enfrentar o Mundo. Luisão conhece virtudes e limitações do seu jogo, razão pela qual não pretende ser mais do que é. Faltam-lhe argumentos técnicos para ser um astro maior, mas tem sido muito zeloso do papel que desempenha na equipa e da relevância que já tem na história do Benfica.

4 - Girafa vive em contraciclo com esta fase em que os maiores clubes portugueses estão condenados a receber estrangeiros de origens modestas e a encaminhar os melhores para destinos mais faustosos. Aceitou ser uma bandeira de lealdade que remete para o tempo em que as equipas refletiam o sentir dos adeptos, isto é, quando todos se uniam à volta de uma estética e de um estilo que os identificava; quando jogavam de acordo com o meio em que viviam e segundo a história que as suportava. Girafa suscita o apego a valores sentimentais em equipas aparentemente condenadas a ser o reflexo de profissionais empenhados, talentosos, que falam a linguagem universal do futebol, mas cujos vínculos são muito mais voláteis (em alguns casos inexistentes) aos alicerces da causa que defendem. Mantê-lo durante estes anos todos foi um dos grandes negócios do Benfica.

Quaresma exibiu classe de génio

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Frente ao Sporting, a esperança do FC Porto em ganhar o jogo concentrou-se num homem só

Quaresma acrescentou soluções ofensivas a uma equipa que não foi capaz de tirar todo o partido do seu talento, se desmoronou depois e perdeu definitivamente o comboio do título. Depois de vê-lo em ação na primeira metade da partida de Alvalade, 45 minutos ao nível de um génio absoluto do jogo, apetece dizer que, se o Mundial do Brasil fosse para a semana, Harry Potter não discutiria um lugar nos 23 de Paulo Bento: estaria comodamente instalado no onze, com fundamentos tão sólidos como os de Rui Patrício, Pepe, João Moutinho e Cristiano Ronaldo.

Uma obra-prima de André Martins

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O inesperado ainda causa mais impacto junto dos adeptos do que a perfeição

André Martins preferiu fazer o que devia: simplesmente correu, enquadrou-se com a bola e solicitou com esmero a cabeça de Slimani. Não provocou a surpresa, antes optou por seguir o senso comum; não tirou coelhos da cartola para deslumbrar a audiência, antes apelou aos argumentos de inteligência, visão e técnica primorosa para ser eficaz. Foi tudo muito simples e não muito reconhecido, prova de que, muitas vezes, as coisas fáceis são as mais difíceis de concretizar. Em suma, o passe que permitiu a Slimani marcar golo tão fácil como importante é definidor de um enorme jogador.

Quando os juízes estão fora da lei

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Os lances de bola na mão ou de mão na bola tornaram-se foco de erros grosseiros no futebol

As regras defendem o mesmo de sempre: que a infração só deve ser sancionada se o potencial prevaricador o fizer de propósito – deliberadamente é o que está escrito. O que sucede em todo o Mundo, e em Portugal em particular, é que, para salvar a pele, os árbitros decidiram desobedecer às orientações superiores. Porque definir o deliberado não é fácil e aumenta a responsabilidade, passaram a considerar falta sempre que bola e mão se encontram, refugiados em artefactos que eles próprios inventaram. Enquanto não respeitarem o que está escrito, deviam ser considerados fora da lei.

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