1 Sven-Goran Eriksson vencera a Liga de 1990/91, traçando como objetivo a Taça dos Campeões, cuja final perdera, um ano antes, em Viena, para o todo-poderoso AC Milan de Sacchi. Quando foi de férias, aceitara abdicar de Valdo mas não de Ricardo Gomes, conhecedor dos fortíssimos argumentos financeiros do PSG de Artur Jorge para levar os dois. Quase tão relevante, partiu convencidíssimo de que os encarnados tinham roubado Geraldão ao FC Porto. Quando regressou, tinham fugido os dois centrais da seleção do Brasil, na flor da idade (Ricardo com 27 anos, Geraldão com 28), e iria atacar a temporada com Paulo Madeira (21 anos) e Rui Bento (19). O sueco foi à luta sabendo o que o esperava. Um dia, confrontado com os resultados menos bons do Benfica, desabafou: "Nenhuma grande equipa é competitiva ao mais alto nível com centrais tão jovens."
2 Ewerton aproxima-se do zénite como jogador, numa função interdita a menores, que exige os valores adultos que contribuem para dimensionar segurança, equilíbrio e eficácia; na qual a responsabilidade é fundamental e a experiência serve para atenuar os exageros que conduzem à desordem; em que a idade refina o comportamento dos temperamentais e os apetrecha com a discrição que permite moderar a contundência e até a grosseria na chegada à bola e aos adversários. Causa ou consequência, as principais equipas têm, quase todas, pelo menos um central mais próximo dos 30 anos do que propriamente dos 20 – Luisão (34) e Jardel (29), no Benfica; Maicon (26) e Marcano (27), no FC Porto, são bons exemplos. Foi esse um dos principais obstáculos à plena afirmação do Sporting em 2014/15.
3 Na estrela de Ewerton brilham as pontas da classe natural, da sobriedade e da simplicidade de processos; da autoridade silenciosa, da simplicidade de processos e da inteligência tática; do constante acerto das decisões, do tempo de entrada aos lances e da utilização do corpo quando assume os duelos diretos com o portador da bola. Sendo um jogador discreto, tem sempre os índices de concentração no máximo; parecendo muitas vezes distante vive em permanente estado de alerta; não sendo propriamente rápido, chega quase sempre primeiro aos lances e em condições de dominar cada problema, porque adivinha as intenções alheias, sabe comportar-se e tem técnica individual muito acima da média. Se a intuição é a velocidade de ponta da inteligência, é um central velocíssimo, admirado pelos companheiros e temido pelos adversários.
4 Há uma lição de vida a extrair da carreira de Ewerton: nem todas as emboscadas da adversidade têm como consequência a desordem dos instintos e o fim dos sonhos mais belos. Aos 26 anos, vítima de graves lesões que o foram devolvendo à estaca zero, já precisou de ir ao fundo de si mesmo para resgatar a esperança de ser alguém no futebol. Chegou a Alvalade sem condições para resolver o problema imediato de um Sporting suportado por centrais de qualidade mas inexperientes – Paulo Oliveira (23 anos) e Tobias Figueiredo (21). Mas, outra vez à custa da vocação para nunca se dar por vencido, recuperou em tempo recorde a condição física danificada ao serviço do Anzhi e confirmou ser um excelente início de conversa para o futuro. Para ser o comandante defensivo do Sporting 2015/16, não precisa de ter sorte; basta que não tenha mais azares.
Enorme talento de Ruben Micael
Há jogadores que, por mais qualidade que tenham, são sempre alvos da desconfiança exterior
Ruben Micael deu prova de vida como futebolista de topo com o Penafiel. É uma ave cada vez mais rara, porque assume no Sp. Braga papel cada vez mais em desuso nos nossos dias: o de maestro da equipa, coordenador da manobra ofensiva e desequilibrador na zona de definição. Quando as coisas não lhe saem como gosta, levanta-se o coro dos que reclamam razão antes de tempo; quando se expressa em todo o esplendor, valida a opinião de quem o admira como enorme e incompreendido talento.
Marco Matias é um caso sério
De repente, ou talvez não, o futebol português ganhou um extremo para voos mais altos
Marco Matias está a fazer uma temporada extraordinária. Ser o melhor marcador português da Liga é uma distinção relevante; ter 13 dos 36 golos conseguidos pelo Nacional é ainda mais notável – tem só menos um golo do que Jonas e Lima, e menos quatro do que Jackson. Para acentuar a evolução tremenda conseguida sob o comando de Manuel Machado, recordemos que, até ao início da presente época, tinha apenas 6 golos no principal escalão do futebol português. Sendo o extremo com mais golos no campeonato é, aos 25 anos, um jogador para ser levado a sério. Muito a sério.
FC Porto tem palavra a dizer
O Bayern Munique é uma das melhores equipas do Mundo. Talvez seja mesmo a melhor
Pode o FC Porto, segundo classificado da Liga, eliminar uma potência do futebol? Pode, claro que sim, e a convicção seria ainda mais forte se Jackson e Tello pudessem jogar. Os dragões já perderam em 2014/15 mas nunca por equipas que lhe tenham sido superiores. O risco de enfrentar a formação de Guardiola é que o rolo compressor de conceito catalão e fiabilidade alemã atropele quem lhe surja pela frente. A verdade, porém, é que, mesmo havendo quem o possa bater, não parece haver no Mundo quem esmague o FC Porto de Lopetegui.