_
1 O conteúdo das mensagens dos treinadores pode ter impacto inicial negativo. Perante cartilhas demasiado preenchidas e complexas, muitos futebolistas confundem-se e, por isso, demoram a estabelecer laços finais com a orientação do comandante; desfasados do que lhes é pedido, o mais natural é agirem por sua conta e risco, fazendo o que acham melhor. O defesa-central, se não entender as bases da articulação coletiva, costuma seguir o instinto físico. Numa função de exigência elevada, a idade é boa conselheira porque apela à prudência, atenua a desordem tática e cura os efeitos nocivos do exagero; traz mais sobriedade e menos contundência; mais inteligência posicional e menos volatilidade na ação. Aos 22 anos, Mangala já tem quase tudo o que precisa para ser, em breve, uma referência mundial.
2 O tempo encarregar-se-á de apetrechá-lo com mais armas para a função que desempenha. Por enquanto, é um central muito dependente de contacto e reflexos; que ainda não aprendeu todas as lições sobre a melhor colocação no terreno; não estimulou todo o talento para se antecipar às intenções dos adversários; e a quem falta capacidade de análise para ser perfeito nas tomadas de decisão instantâneas, nos momentos de desarrumação da casa. Mas tem um motor F1 nas pernas e o domínio de todos os elementos da velocidade: trava, arranca, acelera e percorre longas distâncias como se fosse um extraterrestre. Quer isto dizer que quase todos os deslizes cometidos na abordagem inicial aos lances são retificados pelo caminho.
3 Porque revela boa articulação motora e tem técnica suficiente para cumprir os requisitos essenciais de receção e passe, é um bom condutor da bola, qualidades relevantes quando atuava a lateral-esquerdo – a sua afirmação no centro já não permite vê-lo na faixa, onde era apenas um jogador vulgar a sacrificar-se pela equipa. Mas o seu dom mais excecional está relacionado com a paixão pelas alturas. Poucos jogadores na Europa jogam de cabeça com a exuberância e a eficácia de Mangala, em qualquer das áreas, quer a defender como a atacar. Aliás, o jogo aéreo deslumbrante tem sido o mote para as críticas relacionadas com a brutalidade dos choques que promove – salta tanto e fica tanto tempo no ar que às vezes parece cair do céu em vez de elevar-se do chão.
4 Mangala tem a plasticidade, a exuberância de gestos e a amplitude de movimentos de um bailarino; expressa a disponibilidade física e mental de um comando sem pudor; e é caracterizado pelo perfil obsessivo do lutador que desconhece a força que tem e nem sempre mede a intensidade dos ímpetos quando joga a bola ou cai em cima dos adversários. Apesar da associação à imagem do segurança implacável que, nem sempre com bons modos, zela pelo direito de admissão ao espaço compreendido entre as costas da defesa e o guarda-redes, Mangala é iluminado por uma auréola de inocência que confunde. Entre a dança e a guerra; o espetáculo e o erro (o que deu o golo do Belenenses é filho único); o bom senso e a vocação heroica, já é o mais valioso central da Liga. Grandes potências do futebol estão de olho nele. Estranho seria se não estivessem.
Fredy candidato a figura da Liga
Num Belenenses a crescer, desempenha, com brilho cada vez maior, o papel de joia da coroa
Fredy tem o talento muito raro de servir para todas as exigências da construção: trava e acelera; combina e sai em ações individuais; joga por dentro e por fora; cumpre o senso comum e é capaz de tirar coelhos da cartola. À qualidade técnica indiscutível acrescenta a força do exemplo, como representante da casa onde nasceu e cujos símbolos conhece e respeita como se fossem mandamentos sagrados. Chegou ao topo numa fase difícil do Belenenses: não se impôs, foi emprestado e regressou de Angola com o peso de experiência mal sucedida. Tem tudo para ser uma grande figura da Liga.
Adrien aumenta o disco rígido
Com o tempo tem-se aproximado da zona de comando da equipa, onde se sente mais confortável
Adrien começou por ser líbero da ação ofensiva e avançado do sector recuado. Porque a combinação entre juventude e responsabilidade nem sempre resulta, foi cometendo erros mesmo quando revelava qualidades notáveis para ser não um 6 mas um 8 de nível superior. No Sporting de Jardim encontrou tempo, espaço e confiança para se expressar na plenitude. Tem acrescentado ao disco rígido armas desequilibradoras como finta, visão, tiro e capacidade para coordenar os movimentos de aproximação à baliza. Tudo sem perder o compromisso com a causa leonina, o que faz dele um notável guerreiro.
César Peixoto é príncipe do Gil
O golo ao V. Guimarães foi apenas um episódio no todo que tem sido a sua época
César Peixoto desempenha papel comum a estrelas que brilham ao serviço de equipas modestas em estado de graça: é o príncipe de uma comunidade que, em boa parte à custa da sua infinita qualidade, vive os dias felizes de um lugar perto do céu, logo atrás de FC Porto, Benfica e Sporting. Jogador de vistas largas e técnica deslumbrante, que coloca a bola onde e como lhe apetece, Peixoto faz girar à sua volta a mais forte surpresa da época: o Gil Vicente de João de Deus, um conjunto de homens que sabe sofrer e apresenta cada vez mais argumentos para jogar sem limitar o sonho.