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O FC Porto ganhou (bem) no Restelo e manteve a liderança da Liga em vésperas de receber a visita do Benfica; o Sporting não foi além de um nulo na Trofa, perante um conjunto que, após a entrada de Tulipa, deixou de ser visto como um "condenado" a passou a "especialista" em roubar pontos aos grandes; Sp. Braga e Paços de Ferreira ofereceram-nos um bom espectáculo futebolístico ao qual só faltaram mais golos; o Leixões continua sem ganhar, mas também sem perder (o que dá para manter vivo o sonho do acesso à Europa); o Estrela da Amadora prossegue a sua épica caminhada, pontuando mas não recebendo; o Vitória de Setúbal está cada vez mais apertado (desportiva e financeiramente) e os rivais da Madeira voltam a estar lado-a-lado na classificação. Tudo isto foram temas interessantes da primeira ronda da segunda volta da Liga. Mas, sem desprimor para ninguém, nada foi mais incrível que o regresso à acção (e aos golos) de Pedro Mantorras.
Nunca considerei que o angolano tenha valido as verbas astronómicas que Luís Filipe Vieira chegou a reclamar, mas também jamais duvidei que o humilde africano tinha todas as condições para se tornar um caso sério no futebol. Em Portugal, mas igualmente na Europa e no Mundo.
Se as lesões não tivessem sido madrastas para o simpático futebolista que despontou no Alverca e rapidamente conquistou o coração dos adeptos encarnados quando se apresentou na Luz, tenho a certeza que, hoje em dia, não estava em Portugal. Talvez andasse em Espanha - onde um dia duvidaram do seu potencial - Itália ou Inglaterra.
A lesão que o apoquentou, as sucessivas operações e recuperações ou os tratamentos que se fizeram (ou os que não foram feitos) continuam a ser um tema tabu para muita gente, nomeadamente dentro do Benfica. Já li e ouvi muitas coisas sobre o assunto, mas mantenho a ideia que a "novela" nunca foi totalmente esclarecida. Mas, adiante: Mantorras teve foi uma infelicidade gigantesca. E contra isso, é verdade, pouco ou nada se pode fazer.
Por mais que o futebolista afirme (e reafirme) que está completamente apto para a prática do futebol, basta vê-lo correr para perceber que algo o impede de se mexer à vontade. Ninguém coxeia por vontade. E mesmo por tique parece-me duvidoso.
Mas, se é claro que Mantorras não pode jogar todos os jogos, nem talvez 90 minutos consecutivos, também ficou provado, aquando do último título encarnado, que o rapaz consegue - com uma gestão de esforço e de treino devidamente calculada -ajudar a equipa. No sábado, perante o Rio Ave, o angolano voltou a ter aquilo que há muito reclamava: uma oportunidade. E bastaram-lhe 4 minutos em campo para levar à loucura os mais de 20 mil benfiquistas que, gelados nas bancadas, desesperavam com a hipótese de novo tropeção caseiro.
Mantorras tem, de facto, um carisma invulgar. Mas, possui igualmente um talento acima da média. A forma como se virou para a baliza, deixando fora de combate o jogador contrário, não é para todos. Antigamente, levava a melhor com as arrancadas fantásticas, em "explosões" à "sprinter". Agora, já sem essas faculdades, usa as armas que lhe restam.
Mantorras é, sem dúvida, um sobrevivente. Nunca desistiu de lutar pelo seu sonho e continua a dizer que quer ajudar. Eu, assumo, pensava que ele já não era capaz, mas tenho de dar a mão à palmatória. Enquanto conseguir entrar em campo e ganhar jogos, Mantorras (ou outro qualquer jogador) tem utilidade.
Com o golo diante do Rio Ave, Mantorras disse a Quique Flores que pode contar com ele. O espanhol deve ter percebido a mensagem pois, caso contrário, os adeptos não lhe perdoarão a desconsideração com o "menino bonito". Mas, Mantorras também falou para Vieira e Rui Costa: enquanto a equipa estiver em competição, o futebolista não deve andar a servir de embaixador nos Estados Unidos ou em África. Por enquanto, ele ainda é futebolista. E até marca golos! No futuro, haverá muito tempo para o rapaz de Luanda ser útil noutras funções.
PS - Notável a resposta de Jesualdo Ferreira, no "flash interview" da Sport TV, quando inquirido sobre a expulsão forçada de Fucile no Restelo. Sem se desmanchar a rir, o técnico azul e branco garantiu que o vermelho do uruguaio não tinha sido propositado. Claro que não! Nós é que somos todos parvos. Nós e o Fucile!