Pois é... A vida tem destas coisas, umas vezes estamos em alta, depois em baixa, a seguir outra vez em alta e por aí fora. Nunca se sabe o dia de amanhã. Aos que o davam como morto e enterrado, Valentim Loureiro responde agora, sem arrogância mas com a determinação de sempre, reocupando o seu lugar de presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Para lhes ser franco, devo confessar que fico satisfeito. Não por causa da minha simpatia pelo major, que nunca escondi – e quem me conhece bem sabe que se manteria, mesmo que um dia alguém o viesse a encarcerar como terrível malfeitor –, mas porque, havendo maneira de se fazerem bem as coisas, há sempre quem insista em fazê-las do pior modo. E esta facilidade de se prenderem as pessoas por "fortes indícios" de tenebrosos males e depois, afinal, nada se materializar em coisa alguma, é de pôr os nervos em franja. O resultado do voluntarismo judicial que tantas vezes destrói a vida de um cidadão é neste caso muito simples: um ano depois, "indícios" parece que continuam a não faltar, o que não existe é acusação. A meia bola e força à boa maneira portuguesa no que dá é nisto. E é uma linda obra.
1. Moreira
O treinador italiano do Benfica deve ser um fã dos filmes de Alfred Hitchcock! Depois de levar 4 golos do Belenenses, Trapattoni manteve a confiança em todos os jogadores menos naquele que evitou uma derrota ainda maior no Restelo – Moreira, precisamente. E por muito injusta que essa opção tenha sido para o jovem guardião, a verdade é que Quim ganhou a titularidade e cumpriu, dando plena confiança à equipa. O pior parece ter-se dado na Luz com a U. Leiria, há uma semana, quando Ricardo Rocha ficou "cá em baixo" e João Paulo, como se estivessse num treino, cabeceou para o golo. É que, pelos vistos, Trap nunca perdoa ao homem do último risco: e foi agora a vez de Quim saltar. Isto entende-se, ó mister?
2. P. Roma
Tudo o que se diga sobre o guarda-redes da Académica pode resumir-se numa única frase que é também um lugar-comum: passou ao lado de uma grande carreira. Primeiro quando esteve no Benfica, depois quando passou por Braga, muitas vezes por nem como titular da Briosa se ter conseguido fixar. A verdade é que Pedro Roma, a caminho dos 35 anos, é hoje, mercê da experiência acumulada e do facto de nunca ter desistido de trabalhar, um excelente guarda-redes. Muitos acusam Pinilla por ter falhado o 1-0 para os leões nos minutos finais, mas o avançado chileno o que não teve foi a arte suficiente para evitar a superior defesa do homem que tapava a baliza academista. Brilhante!
3. Srnicek
Liam-se 84 minutos nos mostradores dos relógios quando Liedson marcou ao Beira-Mar, em Alvalade, depois do remate de Polga ao poste da baliza do gigante checo. Sobre a actuação de Srnicek (nota 3), escreveu aqui no Record o meu camarada João Almeida Moreira: "Guarda-redes seguro e imponente nas bolas altas, teve uma exibição dividida entre o mérito e a sorte..." Duas semanas depois, no último domingo, em Aveiro, corria já o minuto 90 quando o remate em arco de Quaresma traiu Srnicek. O Record, agora através de António Mendes, voltou a dar nota 3 ao guardião aveirense, de 37 anos, que não merecia que, à beira do fim, lhe faltasse outra vez a sorte. E logo contra dois grandes! Inácio nasceu para sofrer...
4. João Vilas-Boas
O Sporting-Académica foi fácil de dirigir e alguns erros na apreciação de foras-de-jogo, mais atribuíveis aos assistentes do que ao árbitro, não chegariam para se considerar que João Vilas-Boas tivesse feito um mau trabalho. Mas fez. Porque houve aquela falta sobre Liedson mesmo à entrada da área que ficou por assinalar – e que daria um livre perigosíssimo – e ainda um corte com mão de Polga, que devia ter sido punido com cartão vermelho – o avançado Marcel ficaria isolado, ainda que muito longe da baliza de Ricardo – e não com o amarelo, o que quer dizer que a actuação do juiz da partida pode ter tido influência no resultado final. E é este tipo de erros que deviam ser imperdoáveis, já que não existe mais nada a fazer do que aplicar a lei. E se um árbitro – e logo este, que tão boas indicações tem dado! – não tem sequer coragem para aplicar a lei, merece a pena ir buscar o chavão do "errar é humano" para justificar as asneiras no julgamento dos lances que são de facto difíceis de ajuizar? Poderemos ainda esperar alguma coisa de João Vilas-Boas?
5. V. Baía
Se alguém ainda tivesse dúvidas sobre as capacidades de Baía, os últimos jogos foram elucidativos: o FC Porto já não estaria a esta hora a discutir o título se não tivesse na baliza este enormíssimo guarda-redes. Em Aveiro, só no espaço de quatro minutos, entre os 75 e os 79, apareceram-lhe pela frente Beto e Tanque Silva, completamente isolados – numa altura em que os portistas atacavam em massa, deixando descompensada a sua defensiva. Pois, em ambas as ocasiões, Baía correspondeu, executando duas extraordinárias defesas, que impediram o 1-0 e permitiram pouco depois o tento providencial de Quaresma, que bem podia não ter chegado sem o suporte anímico dado à equipa pelo fora-de-série da baliza. Absolutamente genial.
As coisas que eu guardei
Destino. O triunfo de Adelino Teixeira na Volta, a contratação de Jordão pelo Sporting e a deslocação do Benfica a Sevilha estavam, há 28 anos, na primeira página desta edição de "A Chincha", que o jornalista Rui Dias "obrigava" o pai Fernando a comprar. Era o primeiro sinal de que um grande profissional da escrita estava na calha. É que ter nascido para isto também faz falta...