Se há coisa que sempre me incomodou é ver alguém trabalhar e não receber ao final do mês. Seja muito, seja pouco, sejam operários, camponeses, jornalistas ou futebolistas. Existindo uma ligação entre duas partes, ambas têm de cumprir o estipulado. Quando só uma o faz... estamos mal!
O que tem acontecido aos profissionais do Estrela da Amadora nos últimos tempos é uma verdadeira vergonha. Mais do que manchar o futebol cá do burgo (useiro, infelizmente, neste tipo de casos), esta situação prova que na nossa sociedade há muita gente a prometer o que sabe não poder pagar. E isso, naturalmente, não devia ser permitido pelas autoridades competentes. Mas, em Portugal, cada vez mais, tudo é possível, nomeadamente o que devia ser... impossível.
Quero acreditar que António Oliveira, presidente do Estrela, tem-se esforçado no sentido de conseguir resolver a caótica situação financeira em que o clube mergulhou. É essa a sua função, enquanto representante máximo de uma colectividade democraticamente eleito pelos associados. Mas, mesmo dando de barato o seu esforço, o que está à vista é que na Reboleira só os membros da equipa de futebol é que trabalham e apresentam resultados. Os outros ficam-se pelas tentativas. Independentemente dos condicionalismos vários - com destaque para o facto de chegarem ao final do mês e apenas receberem... promessas -, os membros da equipa principal do Estrela estão a fazer uma temporada sensacional. O nono lugar na Liga, agora abrilhantado com a chegada às meias-finais da Taça de Portugal, fala por si.
Se olharmos para o plantel do Estrela, rapidamente percebemos que não é dos mais fortes do País, nem necessariamente dos mais caros. Há jogadores emprestados, muitos jovens e gente com escassa experiência na divisão principal. Alguns elementos, aliás, saltaram da II Divisão directamente para a Liga Sagres. Mas, mesmo assim, com um grupo composto essencialmente por atletas que não cativaram o interesse de emblemas mais pujantes, o Estrela continua a praticar um futebol que não envergonha e, acima de tudo, consegue resultados de qualidade. E pelo meio, devido aos problemas do conhecimento público, até o ideólogo do conjunto – Lito Vidigal – foi forçado a bater com a porta.
Os jogadores do Estrela são tão incríveis que, horas depois de ouvirem o presidente dizer que chegar às meias-finais da Taça seria “um autêntico euromilhões para o clube” – devido às verbas esperadas num duplo confronto com o FC Porto –, foram a Guimarães afastar uma equipa difícil, mais experiente e com outros recursos. E se é verdade que durante a primeira parte, os amadorenses preocuparam-se basicamente em defender, na segunda fizeram questão de procurar a felicidade. Até a encontrarem.
Se dúvidas ainda existissem, este jogo no Minho comprovou que esta é uma das equipas que merece ficar na história do Estrela. Duvido que consiga conquistar a Taça ou chegar às competições europeias, mas o respeito de todos os profissionais, dos mais variados ofícios, está mais do que ganho.
Só gostava de saber é com que cara o líder da direcção (será que se pode chamar assim, tendo em conta as sucessivas demissões?) olha para os seus futebolistas? Passar a vida a dedicar-lhes elogios não lhes enche a barriga, nem ajuda a pagar as contas...