Nani: mostra o que vales

Nani: mostra o que vales

1 - Pertence à estirpe de futebolistas que hipnotizam as plateias e levam treinadores ao desespero, porque onde uns veem magia pura os outros veem sucessivos sinais de indisciplina tática. Nani sabe que o trapézio é para ser feito com rede mas nunca acreditou a sério no futebol geométrico e pré-fabricado. Não assimilou à primeira os princípios básicos de organização e equilíbrio coletivos, razão pela qual resiste a automatizar ações com base na repetição de gestos. Ao longo de uma carreira que já vai longa, é raro vê-lo recorrer a movimentos e decisões de catálogo. Quando pega na bola faz hoje o que sempre fez. No fim de contas, aquilo para que nasceu: inventar pelo caminho.

2 - O Mundial no Brasil aparece no fim de uma época miserável para o Man. United, que de campeão inglês caiu para zona fora das competições europeias; mas também para Nani, afastado das primeiras e às vezes segundas opções do comando. Perante a necessidade de lutar contra a adversidade, David Moyes não resistiu a preferir obedientes a mágicos; a valorizar futebolistas que colocam a técnica ao serviço do cérebro do treinador em detrimento de quem se orienta, acima de tudo, pelo instinto e a inspiração que impulsionam a tomar decisões instantâneas. Ao contrário de outros que suscitam dúvidas pela deterioração do físico, Nani causa o incómodo da omissão, do pouco tempo de jogo, dos números insignificantes de utilização – sim, esteve lesionado, mas desde março que esteve afastado por mera opção técnica.

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3 - O tempo está a esgotar-se para que assuma perante CR7 papel igual ao que Coluna, José Augusto e Simões tiveram relativamente a Eusébio; para ser a estação intermédia entre o melhor do Mundo, envolto por uma aura divina, e os cidadãos terrenos que são os demais jogadores portugueses. Em talento puro, Nani vem a seguir ao génio maior, como elemento de um segundo pelotão composto por artistas que, não estando no patamar dos deuses, alimentam a esperança de, um dia, passarem por lá. Em Old Trafford, ao contrário do que pareceu, Nani foi travado nos ímpetos mais expansionistas, porque o seu estilo imaginativo e genial esbarrou no conservadorismo de quem preferiu elementos de traços lineares, mais generosos no esforço e que se limitem a correr a direito, chegar à linha e cruzar para a área.

4 - Nani vive como eterno candidato a herói, alimentando a convicção de que tem argumentos para dar glória e eficácia ao padrão criativo desenvolvido desde a adolescência. A estrada que o trouxe até aqui coloca-lhe agora o desafio final; o momento do tudo ou nada para esclarecer se é ou não o delfim de CR7. Sendo verdade que no Man. United, em nome de riscos imaginários, lhe tem sido proibida a expressão de todo o potencial, não pode virar as costas à tremenda responsabilidade: oferecer talento, sentido de aventura, fantasia e imaginação para consolidar Portugal como outsider na luta pelo Mundial. Chegou a hora de mostrar o que vale. A hora de obter consensos e encontrar condições para, nos momentos de dificuldade extrema, ser também ele a rebocar a equipa, a fazer explodir estádios, tornar-se ídolo de um país e alvo da admiração universal.

JJ, “Os Maias” e Eça de Queiroz

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As mais recentes aparições públicas levantam a questão do que é, afinal, boa comunicação

Jorge Jesus não enjeitou a ocasião e fez reverter a seu favor algumas das peculiaridades linguísticas que, normalmente, são apontadas contra ele. Mesmo quando não utiliza as palavras certas ou não conjuga os tempos verbais corretos, JJ faz-se entender, por vezes expressando ideias com fundamentos científicos. Desde que não pense em escrever “Os Maias”, nada a recriminar. Querer assinar uma obra literária seria tão mau como se, por absurdo, Eça de Queiroz tivesse desejado um dia conduzir com vocabulário majestoso uma equipa de futebol.

Juntar William a Miguel Veloso

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Para Redondo, ter alguém ao lado no meio-campo era como se lhe tapassem um olho

O argentino, um dos melhores 6 da história, reclamava autonomia para tomar decisões e fazer a gestão do espaço que lhe estava consignado. No jogo com a Grécia, Paulo Bento colocou William Carvalho ao lado de Miguel Veloso, dois jogadores pouco habituados a repartir tarefas naquela zona. O resultado não foi catastrófico mas ficou à vista que um e outro se sentem mais confortáveis a desempenhar a função um sem o outro. Numa perspetiva de dar músculo ao miolo, por exemplo no jogo com a Alemanha, com CR7 em vez de Varela e Moutinho no lugar de Éder, faz sentido juntar os dois.

A nobre decisão de uma estrela

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Há lutas que valem sempre a pena, mesmo que a vitória seja uma probabilidade longínqua

Falcão é uma das maiores baixas do Mundial’2014. Lesionado com gravidade em janeiro, dispôs-se a todos os sacrifícios para operar o milagre que seria restabelecer-se a tempo de tornar a Colômbia uma seleção ainda mais forte e com maiores ambições. O ex-portista fez tudo quanto devia: desafiou a ciência e os seus próprios limites, na esperança de estar apto a jogar no grande palco. Por tudo isso, foi muito duro reconhecer a derrota; por ser um homem de formação irrepreensível, foi bonito confirmar a nobreza com que reconheceu ser melhor dar lugar a quem esteja a 100 por cento.

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