Ensinava-se nas escolas do Brasil, quando eu era menino, que Pedro Álvares Cabral estava a caminho das Índias, perdeu-se no Oceano Atlântico e chegou à Bahia, em Porto Seguro. Gritou: “Terra à Vista!” Descobriu o Brasil a 22 de abril de 1500. Agora quem está à deriva é o futebol brasileiro e à procura de um novo selecionador nacional, o quinto em apenas 30 meses. É muito provável que Jorge Jesus seja o novo treinador da seleção brasileira e que isto se confirme nas duas primeiras semanas de maio. Mas há sempre a hipótese de ganhar a Champions League da Ásia e o Al Hilal frear sua saída.
No Brasil, não se contrata treinador por convicção. Contrata-se por repercussão. Jorge Jesus tem o apoio da imensa massa de adeptos do Flamengo, calculada em algo como quatro vezes a população de Portugal. Ednaldo Rodrigues, um fraco, precisa deste apoio. Veja, não se diz aqui que Jorge Jesus é um treinador frágil. Não! Foi um sucesso no Brasil, também em sua primeira experiência no Benfica. Tem história e pode ser o selecionador. O presidente da CBF é quem não tem personalidade, apenas necessidade de seguir um nome capaz de lhe oferecer respaldo. Reconhecer a capacidade e o sucesso de Jorge Jesus no Brasil não se exclui pensar sobre as contradições de sua escolha. A sua chegada ao Brasil, há seis anos, deu-se pela percepção brasileira de que nossos treinadores já não têm conhecimentos teóricos necessários para desempenhar suas funções no mais alto nível que a profissão exige. Em Portugal, uniu-se o conhecimento prático, do relvado, ao académico, da universidade. Isto formou um tipo de selecionador pouco visto no mundo. Sem contar Alemanha e Itália e Guardiola, Portugal tem alguns dos melhores treinadores do mundo. São 77 títulos em 30 países diferentes no século 21. Pedro Martins, Leonardo Jardim, Abel Ferreira, Jorge Jesus, Fernando Santos, Paulo Fonseca, Luís Castro... Sobretudo José Mourinho! Onde se passa, tem lá um treinador português de sucesso.
E o Brasil decidiu inverter o eixo, por razões justas. Se antes Oto Glória e Scolari levavam Portugal às meias finais das Copas do Mundo, agora esperamos ser levados de volta por Jorge Jesus. Ou por Abel Ferreira. Curiosa equação, porque Jorge Jesus publicou um livro intitulado “Não sou Eça de Queiroz”, em que afirma justamente não ser um catedrático. Não que seja necessário ser um mestre das letras para ser selecionador, mas o Brasil está justamente à procura que seus técnicos sejam mais bem formados. Abel Ferreira, também cotado para o posto de selecionador do Brasil, por ser o mais bem sucedido na história do Palmeiras, tem publicado outro ensaio denominado “Cabeça Fria, Coração Quente.” Oposto ao trabalho de Jesus, detalha cada jogo, pormenores de jogadas e decisões táticas que ajudaram a conquistar duas Libertadores da América, uma Champions League mais violenta e menos glamourosa.
O futebol brasileiro tem muitas coisas boas. Jogadores e talentos em profusão. É o único país com atletas em todas as finais de Champions League no século 21. Embora esteja na América, tem mais presenças em decisões europeias do que Espanha, Itália, Alemanha, Inglaterra, Portugal. E, no entanto, uma elite que não pensa. O novo selecionador nacional será português. Ou Jorge Jesus, ou Abel Ferreira, cogitou-se José Mourinho, pensou-se em Carlo Ancelotti. O pensamento não é muito claro. Precisamos de conhecimento, escolhemos quem não é Eça de Queiroz – competente, não catedrático. A verdade é que o Brasil está à procura do seu redescobrimento e navega em direção a Portugal.
Por Paulo Vinícius Coelho