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O estranho pragmatismo encarnado

Objectivamente a jornada 21 da Liga, no que à luta pelos postos cimeiros diz respeito, não trouxe nada de novo. Leixões e Sporting de Braga já sabem que devem sonhar apenas com a UEFA (tal receita é válida também para o Nacional, mesmo antes de se saber o resultado em Setúbal), mas a conversa do título, como quase sempre, interessa apenas aos grandes. A 9 rondas do final, nem uma invulgar sequência de desfechos impedirá que o campeonato seja conquistado por um dos tradicionais pretendentes.

Embora a jornada não tenha sido madrasta para todos os gigantes cá do burgo, convém acrescentar que foi, de caras, mais positiva para o FC Porto. Porque continua a vencer fora, porque voltou a praticar futebol de qualidade, porque superou com nota alta um dos obstáculos mais complicados com quem ainda tinha de jogar (e logo uma equipa que, na primeira volta, ganhou no Dragão) e porque - e isso é o essencial - a vantagem mantém-se inalterável faltando menos uma partida para o termo da prova.

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E sendo verdade que a tarefa dos azuis e brancos em Matosinhos começou por ser facilitada (na Luz, na jornada anterior, os pupilos de José Mota também foram bastante simpáticos) com um penálti mais oferecido que conquistado - a que se seguiu um segundo golo em que um defesa local fez a assistência e Beto ficou... a assistir -, o FC Porto teve o mérito de, desde cedo, ter ido à procura dos 3 pontos.

Em Alvalade, perante um Paços de Ferreira que se esqueceu de atacar, o Sporting também não ficou à espera da sorte. Sem realizar uma exibição de empolgar fez o suficiente para, quanto antes e sem sobressaltos, garantir o sucesso e manter-se, embora à distância, atento ao que se passa à sua frente.

No domingo, o Benfica também não se atrasou. Mas, ao invés do que se passou com os eternos rivais, através de mais uma prestação verdadeiramente masoquista. É verdade que os adeptos encarnados - como todos os outros - preferem triunfos a exibições de gala mas, convenhamos, o pragmatismo do conjunto de Quique Flores chega a ser desesperante.

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As águias tiveram a felicidade de entrar no jogo a vencer. Quando ainda nada tinham feito para o merecer, Aimar fez o primeiro da partida e da sua conta pessoal na Liga (à 21.ª jornada...). Mas, quando a lógica nos dizia que, a partir daí, tudo seria mais tranquilo para os encarnados, o que se viu foi inacreditável. O Benfica chegou ao intervalo com menos de 40 por cento de posse de bola e, mais grave, sem rematar, sem ganhar cantos ou livres, sem levar perigo à área contrária, sem acertar três passes seguidos, sem jogar... nada!

Passei anos e anos a ouvir treinadores e jogadores a explicar que, quandos os grandes defrontam equipas de menor poderio, complicado é marcar o primeiro golo. Pois bem, a versão 2008/09 do Benfica resolveu desmestificar essa tese. O que se viu na Figueira da Foz (e não foi a primeira vez, embora me pareça que nunca tenha sido tão óbvio) foi impensável. E se faz sentido que uma equipa que precisa de pontos adopte uma estratégia mais cautelosa a partir do momento em que se coloca em vantagem, não entendo que a ideia passe, pura e simplesmente, por abdicar de jogar.

E o mais estranho é que a fobia defensiva nem sequer produz resultados satisfatórios a esse nível. Tal como sucede na maioria dos jogos, o Benfica sofreu um golo quando se limitava a defender, o que torna a situação ainda mais ambígua. Depois, como sempre, quando soou o alarme, lá apareceu o Benfica de ataque, com soluções de qualidade a justificar o golo e a conquista da vitória. Mesmo tendo em conta que o lance do triunfo nasceu de uma falta inexistente.

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Não sei se a culpa desta estranha predisposição do Benfica se deve atribuir ao treinador, aos jogadores ou a ambos. Se calhar o problema é a táctica embora, confesso, não a entender desde o começo da temporada. Mais do que discordar da opção de alinhar com um só avançado de raiz, assumo nunca ter visto tantos futebolistas de qualidade acima da média a jogar tão pouco, de forma tão desgarrada. Chega a ser difícil acreditar que treinam juntos há vários meses! Aqueles que defendem a redução do número de equipas na Liga deviam perceber, de uma vez por todas, que em Portugal não falta competitividade. O que se vê cada vez menos é qualidade e essa, em primeiro lugar, devia ser exigida não aos pequenos, mas sim aos gigantes, que gastam fortunas, até podem ganhar muitas vezes mas... jogam pouco futebol.

PS - Miguel Veloso "descobriu" que no Record existe uma campanha para o denegrir. Provavelmente fomos nós que lhe provocámos algumas lesões, que lhe transmitmos o vírus da gripe, que o impedimos de se transferir para um colosso internacional, que sugerimos ao pai e/ou empresário que tivesse declarações que não agradaram aos responsáveis leoninos ou que instigámos Paulo Bento a enviar-lhe um sem número de recados e a esquecer-se de o convocar em diversos jogos. Enfim... Ainda bem que o futebol se joga maioritariamente com os pés!

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