O futuro pertence a André Gomes

O futuro pertence a André Gomes

1 - Em janeiro de 1998, o Inter Milão contratou Paulo Sousa ao Borussia Dortmund e o português não demorou a entender o papel que o treinador Gigi Simoni tinha para ele. Depois de roubar a bola, o míster só permitia duas saídas: passe imediato para Ronaldo “Fenómeno” ou longa correria de uma área à outra. A potência italiana enganara-se: levou um geómetra mas queria um empregado de limpeza; enamorou-se pelo jogador do futuro mas a ideia era praticar um futebol das cavernas. Se, por absurdo, André Gomes fosse confrontado com decisão tão desfasada das suas principais qualidades, o choque seria menor: pertence à estirpe dos jogadores que cumprem os requisitos de todos os estilos e funcionalidades.

2 - Colocado perante qualquer situação, tanto dá à bola o itinerário conhecido por todos os elementos da expedição como oferece alternativas desconhecidas que tornam apetecível a aventura de criar. André Gomes tem talento para gerar assombro e temperamento para defender essa virtude com a mesma convicção dos que jogam lutando. Nele coincidem a inteligência com que interpreta o senso comum e a fantasia com que alimenta o instinto; a escolha de opções previamente definidas e a inspiração para inventar pelo caminho. No fundo, não se inferioriza por colocar técnica, visão e compromisso ao serviço do treinador, nem de funcionar como ferramenta das suas ideias, pela simples razão de que tem argumentos para ser protagonista e deslumbrar com elementos fora do guião coletivo.

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3 - André Gomes desliza pelo campo, afastando-se das correrias loucas, dos choques sucessivos, do excesso de velocidade e restantes opções cujo heroísmo se confunde com demagogia pura e simples. Embora esteja cada vez mais apto a satisfazê-los na medida correta, é indiferente a muitos princípios que orientam o futebol moderno, desde logo a urgência de chegar primeiro. Traçou como perfil tratar a bola com esmero, assente nos benefícios do passe e da simulação; de descobrir espaços e valorizar a travagem; de alimentar com critério e precisão o jogo combinado e prosseguir em exercícios solitários cujo perigo aumenta à medida que vai galgando obstáculos até ao objetivo final. Faz tudo bem. Sempre fez. O inconveniente, e que já lhe custou dissabores, foi fazê-lo com motor a gasóleo nas pernas.

4 - Vencida a etapa da transição para o patamar mais alto do futebol, deve aproveitar as benesses do tempo – aos 21 anos, o futuro pertence-lhe. Enquadrado pelos ensinamentos de Jorge Jesus e pela orientação de Nuno Espírito Santo, André Gomes precisa agora de aumentar a intensidade e interpretá-la para aumentar a autoconfiança; que o reconhecimento e o prestígio crescentes o motivem a ser ainda maior e não funcionem como álibi para abrandar a evolução; que a eficácia cada vez maior em tudo quanto faz se traduza numa consolidação de autoridade e não seja sinal de plenitude prematura. Não tarda, Valência será de menos para tanta ambição e qualidade. Figura da liga espanhola, tem outros voos no horizonte. Falta-lhe conquistar a Seleção e integrar a lista dos médios de referência do futebol mundial. Será tudo uma questão de tempo.

Erro de Buffon nota-se mais

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O erro cometido por quem não costuma falhar perdura mais tempo na nossa memória

Gianluigi Buffon é um dos melhores guarda-redes da história. Em vésperas de completar 37 anos, permanece como um dos mais notáveis da atualidade, suportado por carreira de ouro, num país que sabe enaltecer, muitas vezes teatralizando, as proezas dos seus mais destacados representantes. Com a Croácia, o jogador da Juventus deixou a bola passar por debaixo do corpo, consentindo golo difícil de enquadrar na sua carreira. O deslize provou que não há infalíveis e que, mesmo já tendo visto muito pior, quando são os maiores a errar a tolerância é muito menor.

O génio sublime de Arjen Robben

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Há jogadores cuja expressão do talento é uma prova de vida para recordarmos que existem

Robben é um dos mais extraordinários futebolistas do nosso tempo, tão grande que, mesmo sendo um fenómeno, ficará aquém do potencial em que assenta o seu jogo arrasador. Numa Holanda aflita (3.ª no grupo, atrás de Rep. Checa e Islândia) foi dele o grito de revolta que permitiu o 6-0 sobre a Letónia. Conhecido como jogador de cristal, ou seja, demasiado frágil, está a fazer temporada sublime ao serviço do Bayern Munique: melhor do que na época passada, já com Guardiola, mas ainda abaixo do que chegou a fazer com Heynckes. O futebol vai ficar a dever-lhe uma Bola de Ouro.

O que pretende Louis van Gaal?

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Nada pior para quem toma decisões com influência num coletivo do que mostrar insegurança

Van Gaal não costuma hesitar. As opções podem ser discutíveis, algumas têm até o condão de ser chocantes, mas é raro senti-lo inseguro. À chegada a Old Trafford anunciou que Nani era dispensável; quando o Sporting se interessou pelo extremo, o holandês nem olhou para trás e, ainda sem Di María, avalizou o empréstimo ao Sporting. Agora queria resgatar o português já em janeiro, porque lhe falta qualidade nas alas. Dos extremos-direitos do plantel, só Nani fala a mesma linguagem de Rooney, Van Persie, Falcão e Di María. E isso é tão claro que entra pelos olhos dentro de qualquer um.

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