Nós, portugueses, somos assim mesmo. Chamem-lhe fado, digam que é uma questão de genes ou aleguem outra coisa qualquer mas a verdade é que detestamos que os nossos compatriotas tenham êxito cá ou no estrangeiro – a excepção será Ronaldo, mas ainda assim este exemplo apenas serve de conformação da regra – e exultamos quando eles perdem. É assim em vários sectores de actividade, da cultura à ciência, da finança à gestão, das artes ao desporto.
«Ah! O tipo é o presidente do banco X – claro, é filho de fulano...». «Olha, se eu tivesse as cunhas dele também estava naquele lugar...». «Deve ter 'sacado' pouco para estar onde está...». «Com aquele dinheiro todo até eu...». São frases destas ou pelo menos muito semelhantes que amiúde se ouvem sempre que alguém tem bons resultados cá na terrinha ou lá fora. As capacidades individuais não interessam, muito menos o esforço desenvolvido por muitos anos de estudo e trabalho. Não, o tipo subiu na vida porque teve alguém ou algo a empurrá-lo. Não fora isso...outro galo cantaria. É típico do português não reconhecer o valor e as qualidades daqueles que triunfam. E isto aplica-se quer aos que estão cá ou lá. Detestamos o tipo vencedor.
E quando um tipo destes tem inêxitos, sofre desaires e sai derrotado, isto sim, isto é que nos dá gozo. «O gajo tem a mania e afinal não vale nada...». «Só ganhou porque atrás dele estava fulano...» - é o que se escuta por entre risinhos de prazer. E de imediato se contratam as carpideiras e se prepara o funeral, porque o tipo já está morto, apenas falta ser enterrado.
Nem todos os portugueses serão assim, mas façam o favor de reconhecer que o retrato se aplica a muitos. São os amargurados, os derrotados da vida.
Foi pois com naturalidade que, nos últimos dias, assisti ao «funeral» de José Mourinho. Um início horrível da temporada, com sucessivas derrotas e a consequente enorme distância pontual dos primeiros, fez desencadear de imediato uma corrida à contratação das carpideiras. O Homem já está de malas aviadas e os jogadores já não o aguentam mais – foram conclusões imediatas de muitos «especialistas». Outros, menos conhecedores, voltaram-se por exemplo mais para aquela do «só ganhou quando gastou muito dinheiro»... As opiniões divergiram, mas em algo houve unanimidade: todos exultaram com as derrotas do Chelsea de Mourinho.
Claro que as derrotas pesam e pesam ainda mais quando se está num clube em que os objectivos desportivos são apenas a vitória. E em todas as competições. Não vou tentar justificar os desaires com a lesão de a ou b, com a não contratação de c ou d, com a actuação errática do árbitro x no jogo y ou z, nem sequer com o facto de apenas por seis vezes na história da liga inglesa um jogador saído do banco de suplentes (por lesão do titular, que não por opção técnica) ter obtido um hat trick. Foram derrotas, ponto final. Mas não é por elas terem ocorrido que Mourinho deixou de ser o melhor treinador do Mundo e passou a ser um treinador vulgar.
Pode ocorrer no futuro muita coisa – e estas linhas estão a ser escritas antes de um importantíssimo desafio para a Champions League e outro para o campeonato diante do Arsenal – e no futebol não há certezas absolutas, mas algo posso garantir: o Homem não está morto! Estão alertados aqueles que ainda tinham ilusões...