O incorrigível Bruno

O incorrigível Bruno

Eu sei que há muitos sportinguistas entusiasmados com Bruno de Carvalho. Sportinguistas de bancada, daqueles que vibram quando a bola entra ou deitam as mãos à cabeça quando se falha um golo de baliza aberta. Para esses o presidente é um modelo, é um deles, sofre com as vitórias e as derrotas, diz tudo o que lhe vai na alma, está cá para mudar o mundo e fazer do Sporting de novo uma potência. Com Bruno acabou-se o Sporting dos pobrezinhos. Mas conheço também muitos analistas mais frios e distanciados que acham que Bruno de Carvalho é um grande gestor, bateu o pé à banca, baixou radicalmente as despesas, apostou na Academia e reposicionou o Sporting devolvendo-lhe um estatuto perdido.

Para que fique claro, eu entendo que entre as opiniões do adepto de bancada e a visão dos críticos há verdades que não merecem discussão. São factos, e quando o trabalho e os resultados estão à vista é isso que conta. Por essa razão não deixei nestas páginas de realçar – no que devia ser realçado – o trabalho do presidente do Sporting. Estou à vontade, justamente por essa razão, para lhe apontar o dedo como fiz algumas vezes, porque há um tom populista perigoso (vou repetir a palavra – perigoso) de que o Sporting e o futebol em Portugal não precisam.

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Tenhamos em conta dois casos dos últimos dias. A confiança reafirmada em Marco Silva é, em rigor, um aviso público ao treinador com quem o Sporting assinou um contrato de quatro anos para um projeto de médio/longo prazo. A equipa não ganhava e ganhou. E depois? Na cabeça do treinador o remoque tem um significado. Bruno poderia ter feito o mesmo numa conversa privada. Se tem autoridade, a eficácia teria sido maior.

O outro caso é ainda mais revelador da personalidade de Bruno de Carvalho e tem a ver com Manuel Fernandes. Em declarações à Sporting TV (uma espécie de Rádio Moscovo) o presidente fez duras acusações a alguém que é um grande símbolo do Sporting. Bruno de Carvalho devia colocar os olhos em Luís Filipe Vieira e ver como este tem tratado os grandes do Benfica. O presidente do Sporting foi mesquinho. Mostrou não conviver bem com os espíritos livres e ver em cada análise na SIC Notícias um ajuste de contas pela forma como foi despedido. Admito que Manuel Fernandes tivesse um salário elevado, o que não entendo é como é que se abre um conflito com um símbolo do clube e, atenção, é nestas circunstâncias que um clube – não sendo uma sucursal das Misericórdias – não é uma empresa como as outras. Manuel Fernandes respondeu bem – “Não é conversa de um presidente”. É essa farda que Bruno de Carvalho tem de se habituar a usar todos os dias.

Orquestra afinada

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Mal comparada a dimensão financeira de um e outro, Luis Enrique está a fazer no Barcelona o que Julen Lopetegui procura fazer no FC Porto. O novo treinador dos catalães tem, além do poderio financeiro, outras evidentes diferenças, entre as quais um grupo de jogadores hipertalentosos e o seu próprio conhecimento do clube, mas também muitas semelhanças como a necessidade de renovar o plantel para voltar a ganhar, de (re)criar um modelo de jogo construindo, para isso, uma equipa quase toda nova. Luis Enrique, como Lopetegui, gosta de trabalhar com as suas ideias, e talvez por isso este ano se fale menos de Guardiola na Catalunha.

O Barça entrou bem, está bem e recomenda-se, sobretudo na frente interna. A equipa faz golos, com um detalhe – Messi é o centro sobre o qual gravita todo o jogo da equipa, mais do que no passado, mas para já marca menos golos porque aparece mais longe da baliza. No Barcelona ainda não entrou Luis Suárez e isso pode fazer a diferença, pela qualidade do seu jogo e pela quantidade dos golos que marca, mas também pelo que pode significar na alteração das pedras em campo. É esperar para ver.

Frontal, mas...

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Já passaram vários dias sobre a entrevista que Paulo Bento deu à RTP onde, confrontado com todas as questões, não se furtou a nenhuma resposta. Paulo Bento cometeu vários erros na sua passagem pela Seleção, alguns deles semelhantes aos que tinha cometido como treinador do Sporting. Isso é grave, porque mostra que ele não aprendeu e tem, na sua personalidade, uma teimosia que por vezes é fatal. Mas o Paulo Bento que a Federação – não se sabe bem quem na Federação... – dispensou é o homem frontal de sempre. Que não se esconde. Que sabe que tem as portas fechadas no FC Porto, que rejeita a interferência de Jorge Mendes, que defende o seu modelo e os seus jogadores. Apenas num aspeto foi equívoco, talvez intencionalmente equívoco – deixou no ar a ideia de que Ronaldo poderia ter contribuído para o seu afastamento e “que se conhece melhor as pessoas na derrota do que

A fábrica

Já o ano passado, muito por mérito de José Couceiro, o jovem João Mário mostrou em Setúbal grandes qualidades. Sem surpresa, pelo menos para mim, integrou a lista de 30 jogadores pré-convocados da Seleção, acabando por ficar em casa tal como Adrien Silva porque Paulo Bento foi fiel aos seus escudeiros. Regressado a Alvalade não esteve, logo no início, nos eleitos de Marco Silva, mas era apenas uma questão de tempo. João Mário é um jogador raro – o protótipo do jogador “moderno” porque alia uma boa capacidade de cobertura e marcação com uma intensidade no jogo atacante que lhe permite criar situações de desequilíbrio. Nesta equação tem valências diferentes de William ou Adrien. Este produto da Academia pode ser, a par de Nani, o grande reforço do Sporting 2014/15.

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