1 Confrontado com os fundamentos do futebol total do Ajax e da Holanda da primeira metade dos anos 70, base do que o Barcelona e a Espanha depuraram décadas volvidas, Johan Cruyff esclareceu numa crónica publicada no jornal "L’Équipe", em vésperas do Mundial de 1998: "Analisando bem, o futebol total não tem qualquer segredo: fundou-se na posse de bola e na situação dos jogadores em campo. O objetivo é que quando um jogador recebe a bola tenha várias opções de passe e que, mesmo escolhendo a pior, a equipa adversária continue à sua procura." Xavi Hernández podia dar a mesma resposta se lhe pedissem para explicar o tiki-taka de Guardiola, porque uma coisa e outra assentam nos mesmos princípios. El Maestro assumiu-se como depositário do rescaldo revolucionário da década de 70 e entrou na lenda como um dos mais geniais chefes de orquestra de todos os tempos.
2 O futebol, eternamente melhorado pela sua contribuição, fica a dever-lhe uma Bola de Ouro, porque nunca os eleitores sobrepuseram o arquiteto prodigioso às pérolas instantâneas de extraterrestres como Kaká, Ronaldinho, Messi e CR7. Xavi é um dos melhores jogadores da história do futebol, não por estatística impressionante mas pela inteligência sublime com que construiu um império de reconhecimento e afetos; não por ser infalível a cumprir o senso comum mas pela forma divina como expressou a arte do engano e a elevou à dimensão coletiva; é um deus não só por dar eficácia à beleza mas pelo respeito que revelou pelas emoções; não tanto pela generosa contribuição para a causa de uma vida mas pelo orgulho de ser futebolista, defender o clube do coração e comprometer-se com a alma de um país.
3 Quando Pep deixou Camp Nou, Xavi tornou-se menos presente, ágil e intenso, logo incapaz de alimentar o instinto felino e os reflexos magistrais – revelou os primeiros sintomas de que estava a perder a luta contra o tempo. Passou então a exercer de modo mais esporádico e em zonas periféricas, logo menos influentes para a capacidade de resposta da equipa. Com a bola nos pés, porém, tem sido igual até hoje: levanta a cabeça, olha, vê e escolhe zonas sem adversários como destino das ações, confirmando ser um especialista a descobrir espaços vazios. Xavi glorificou o tiki-taka e foi o visionário que diluiu na produção global o talento que muitos só reconhecem e idolatram quando expresso avulso por um homem só; e foi o estratego que, partindo como simples operacional, acrescentou argumentos à definição de um estilo e aos princípios que o regem.
4 El Maestro deu sentido estratégico, plasticidade e eficácia a uma opção futebolística de grandeza incomensurável; leu, assimilou e interpretou mero manual de instruções e transformou-o numa doutrina de bom gosto e atrevimento, que conquistou milhões de adeptos nos quatro cantos do Mundo; pegou num conceito e elevou-o à dimensão filosófica de ideologia que recuperou a bola como centro nevrálgico do jogo, deu ao espetáculo a relevância que há muito perdera e resgatou o futebol como expressão de uma arte que também pode ser coletiva. Xavi despediu-se como símbolo maior do Barcelona e de um período dourado do futebol espanhol. E sai de cena como peça mais importante e decisiva de duas das melhores equipas de sempre: o Barça de Guardiola e a Espanha campeã do Mundo e da Europa.
D- anilo em busca do melhor palco
Em 2014 suscitou o interesse de Benfica e Sporting. Passado um ano é muito melhor jogador
Aos 23 anos, Danilo Pereira é um dos melhores médios do futebol português, no final de época a todos os títulos excecional ao serviço do Marítimo. Pelo caminho, aproveitando a conjuntura favorável de ter na equipa técnica nacional um treinador que o conhece e admira (Ilídio Vale), chegou à Seleção. Com físico exuberante, inteligência e futebol adaptável a qualquer realidade tem futuro brilhante pela frente – procura agora palcos ao nível do enorme talento que possui. Encontrá-los-á por certo.
- Aderlan Santos pronto para tudo Algumas equipas do 3.º lugar para baixo guardam tesouros que fariam as delícias de todos
Aderlan Santos já é um central de referência da Liga, estatuto que consolidou em 2014/15. Aos 26 anos, o capitão bracarense possui quase todas as qualidades necessárias à função que desempenha: é forte, duro e rápido; tem sentido posicional e tempo de entrada aos lances; faz-se notar pelo tiro fortíssimo e pelo jogo de cabeça implacável, que impõe nas duas áreas; e ainda assenta o estilo num espírito de liderança que faz dele jogador sem preço para o Sp. Braga. Brasileiro já adaptado aos padrões defensivos europeus (está em Portugal há cinco anos), está preparado para tudo.
- Benítez no Real? É bem feito!
A escolha do treinador madridista não contempla a proposta futebolística e a estética inerente
Ancelotti foi demitido do Real Madrid – Florentino destituiu o nono treinador em doze anos como presidente, o que elucida a convicção com que contrata e a leveza com que despede. Esta é a prova de que o clube mais ganhador da história do futebol tem dinheiro para contratar os melhores jogadores mas raramente se satisfaz com quem escolhe para orientá-los. Pérez anunciou que falar castelhano é a primeira distinção do próximo treinador, sábia decisão que sugere o nome de Rafa Benítez como novo timoneiro. É muito bem feito. Para o Real Madrid, claro.
Por Rui Dias