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Pelo tempo que leva no cargo; pela qualidade do futebol; pela riqueza que gerou e pela dimensão que conferiu a uma equipa em rota de colisão com o passado, nenhum treinador no Benfica se compara a Jorge Jesus nos últimos 20 anos.
1 - Se a glória nos grandes clubes é efémera e tem como prazo o fim de cada jogo, os efeitos da derrota prolongam-se até ao embate seguinte; se as vitórias são automaticamente digeridas, os desaires são espinhas atravessadas na garganta que demoram dias, semanas e até meses a desencravar. É nesta fase em que se encontra o Benfica, depois de ver transformada a iminência de uma época de sonho em duplo pesadelo com derrotas para lá dos 90 minutos. Jorge Jesus deu resposta a questões fundamentais do futebol (que ideia defendemos e como fazemos para ganhar?); deu ao treino o valor sagrado que lhe compete; alimentou a esperança, criou o assombro e tranquilizou os mais céticos. Está prestes a renovar o contrato. Para legitimar a decisão do presidente precisa, agora, de acrescentar títulos à excelência do trabalho.
2 - O Benfica dos últimos quatro anos venceu e perdeu como todas as equipas, mas refletiu o sentir dos adeptos, justamente porque correspondeu sempre aos princípios que os identificam; tem sido um exército orientado pela história que o suporta como representante de uma instituição centenária e ganhadora, agarrado à sua matriz estética e sentimental – mesmo composta por gente oriunda dos quatro cantos do Mundo. De resto, um dos segredos de Jorge Jesus, desde 2009, tem sido consolidar grupos cujos elos de ligação entre si se resumem à linguagem universal do futebol; recebê-los como bons profissionais, cheios de qualidades técnicas, táticas e físicas, dispostos a tudo para ter sucesso, e obrigá-los a assumir vínculos sólidos perante o emblema que trazem ao peito.
3 - As equipas que Jesus construiu na Luz, com mais ou menos consistência, convicção, equilíbrio, apelos à imaginação (Fábio Coentrão e Melgarejo como laterais-esquerdos; Enzo Pérez a médio-centro) e à competência (Matic como jogador de referência mundial; mais a explosão de Di María e a formatação de Gaitán e Olá John), conjugaram ordem e aventura; disciplina e liberdade; segurança e risco; responsabilidade e talento. São conjuntos de vocação ofensiva, que fazem questão de honra em tratar bem a bola mas que estão armados até aos dentes quando a não têm. Equipas que depuraram a versatilidade de argumentos que lhes permite jogar com esperança e resguardo; que fazem do futebol uma festa mas não se diminuem quando têm de entendê-lo como se fosse uma guerra.
4 - Jorge Jesus deu futuro ao projeto nascido dos escombros de anos de desvario coletivo. Aceitou um legado histórico difícil, interpretou o código genético e foi construindo armadas que jogam de acordo com a sensibilidade, a alma e a personalidade do clube. Pelo tempo que leva à frente dos destinos da águia; pela qualidade do futebol; pela riqueza que gerou e pela dimensão que conferiu a uma equipa em rota de colisão com o passado ganhador, Jorge Jesus é o melhor treinador do Benfica nos últimos 20 anos. Desde Eriksson que a Luz não via, em continuidade, espetáculos tão deslumbrantes. Agora que perdeu a Liga Europa e só por milagre vencerá o campeonato, devemos reconhecer que é ele o único treinador capaz de evitar riscos que, noutros tempos, iam levando ao cadafalso um clube enredado na mania das grandezas.
O desconforto de Jesualdo
O treinador pode atuar ou estruturar; ser mais dado à análise ou ao descobrimento
A situação do Sporting, que remete para o início de um ciclo, carrega o peso de não ter margem para erros. O regresso ao paradigma de formação e valorização de jovens foi potenciado por Jesualdo Ferreira. Em vésperas de completar 67 anos, um dos poucos mestres do futebol português vê-se confrontado com uma situação no mínimo desconfortável: ser encarado pela nova estrutura leonina como simples treinador, que deve trabalhar com a matéria-prima que lhe oferecem, sem interferir com as escolhas. Era impossível que aceitasse tamanha indelicadeza.
Josué a fazer de D’Artagnan
A sala de máquinas do Paços de Ferreira explica em grande parte o 3.º lugar na Liga
Paulo Fonseca construiu uma equipa extraordinária, na qual todos os componentes se sentem realizados, prova de que ainda há paraísos no futebol. Os mosqueteiros são três: André Leão é um médio posicional irrepreensível, um dos melhores a atuar em Portugal; Luiz Carlos é cada vez mais perfeito e abrangente no que faz e Vítor conclui duas temporadas de sonho, confirmando um talento a todos os títulos excecional. Josué é o D’Artagnan. Um príncipe da bola que, nas mãos certas, pode ser grande conquista do futebol português. Assinou exibições deliciosas. Únicas. Tem coisas de génio.
Como um peixe fora de água
Há muito não se via, ao mais alto nível, um central ser aproveitado como centro-campista
Rafa Benítez fez adiantar David Luiz para a linha intermediária. Em primeiro lugar, o brasileiro não desconhece totalmente a função, pois foi no meio-campo que iniciou a carreira; depois, face à leveza com que atua atrás, as imprecisões são menos graves quanto mais longe estiver da baliza. O problema é que o ex-benfiquista, apesar da boa técnica individual, não tem rotina de lugar, é peixe fora de água, perde-se pelo caminho, não tem sentido de orientação. E das duas uma: regressa rapidamente ao eixo central da defesa do Chelsea ou pode até perder o Mundial do próximo ano.