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O monstro sagrado

TEMPO – O guarda-redes é um elemento especial no futebol, mais que não seja porque é o único com autorização para jogar a bola com as mãos. Quando tem peso sobre a equipa, o seu valor é acrescido da voz e da sensação de tranquilidade que transmite aos seus; quando é reconhecido também no exterior, é simplesmente precioso, porque intimida os outros – e se as condecorações lhe enchem o currículo nem precisa de muita acção para ganhar ascendente em duelos para os quais parte em clara desvantagem. Nesses momentos basta saber usar a presença entre os postes para que o avançado veja a baliza mais pequena e seja assim conduzido ao erro. Por isso a regra do grande guarda-redes é trabalhar sempre, saber esperar e dar ao tempo o valor que ele tem.

TRÊS CICLOS – Portugal viveu três ciclos desde os "magriços": o primeiro entre final dos anos 60 e meados de 70 (marcado pela exuberante classe do génio que foi Vítor Damas); o segundo nos dez anos seguintes, até metade de 80 (através do fenómeno único, espectacular e dominador que foi Manuel Bento); o terceiro, e último, desde final dos anos 80 até hoje (um resumo dos antecessores, feito de elegância sumptuosa, que é Vítor Baía). Damas foi a excepção, apelidado com todas as letras, ainda menino e moço, de "Eusébio do Sporting" – consideração que alerta para o facto da acção do guarda-redes, em determinados momentos, só ser comparável, em importância relativa, à marcação de um golo; Bento foi a regra levada ao exagero, porque o envelhecimento o tornou mais rápido, ágil e arrebatador, de tal forma que aos 35 anos era, em absoluto, um dos melhores guarda-redes do futebol mundial.

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PERFEITO – Vítor Baía fez o percurso perfeito até 1996. Quando foi para Barcelona transformara-se numa espécie de novo monstro sagrado do futebol português, através de um talento desenvolvido à custa de trabalho e experiência cada vez maior, com influência directa no domínio interno do FC Porto e no lançamento internacional da geração a que pertence. Durante anos foi o mais indiscutível jogador português e o mais valioso, precisamente porque a diferença que o separava dos outros, de tão grande, não era comparável. Dizia-se que era o melhor do Mundo. Era mesmo e atenção: se deixou de o ser desde então não foi por ter perdido qualidades técnicas, nem por ter sido desmascarado por uma realidade mais competitiva, mas, apenas e só, pelas traições sucessivas de um joelho maldito.

ESPERANÇA – Octávio Machado disse não perceber a ansiedade dos jornalistas quando insistiam em pedir informações sobre o regresso de Baía. Cumpria o papel de defensor do grupo, mas não estava, claramente, a dizer o que sentia. As suas palavras, moderadas mas convictas, valem hoje como crédito ao processo de reabilitação levado a cabo pelo departamento médico do FC Porto, cujo êxito abre a esperança à selecção de ter no campeonato do Mundo o seu líder natural – sem beliscar o notável desempenho de Ricardo e Quim. Para já, Vítor Baía satisfez as primeiras expectativas, permitindo matar as saudades a quem sentia falta de o ver entre os postes, naquele estilo único: imperial, elegante, felino, seguro e dominador. O resto, esperamos todos, virá a seguir.

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