1 - Muito por culpa de Jorge Jesus, o tabu da renovação do contrato com o Benfica marcou a semana que antecedeu o dérbi. A frase proferida, tão sincera quanto realista, “para alcançar outros objetivos tenho de sair do país” fez emergir prematuramente uma série de questões há muito arrumadas nos arquivos, mas que mais tarde ou mais cedo até estariam condenadas a voltar ao espaço mediático. O milionário ordenado que aufere, os eventuais clubes estrangeiros interessados ou a admiração que Pinto da Costa por ele nutre foram questões que rivalizaram com a antevisão do duelo entre os eternos rivais e em que nada beneficiam a relação que o treinador mantém com os adeptos. Noutra altura, noutras circunstâncias, especialmente com a questão do título resolvida, tratar-se-ia de uma mera inevitabilidade. Agora, com os destinos do campeonato a jogarem-se em Alvalade, não havia necessidade de se mudar, ou pelo menos de se dividir, o foco do debate em vésperas de um dérbi.
Marco arrisca medir o nível de solidariedade do presidente e Jesus ficará com contas a ajustar com os adeptos
2 - As consequências do desfecho do Sporting-Benfica são óbvias para as duas equipas e mereceram dos mais diversos quadrantes um resumo sóbrio do que está em causa. Mas uma eventual derrota poderá tornar-se mais penalizadora para os treinadores do que para as próprias equipas. Nos encarnados, será o regresso de vários fantasmas: as vantagens desperdiçadas na era Jesus, as madrugadoras eliminações da Taça de Portugal e da Liga dos Campeões e um futuro no plano interno que, neste caso, não se anteveria risonho, face ao melhor apetrechamento do plantel do FCPorto, que continuaria a cotar-se como o principal rival. Depois da ambição revelada pelo técnico de alargar horizontes, muitos balanços podem ser feitos. O Sporting, por seu turno, tem o jogo de vida ou de morte no que a aspirações ao título diz respeito. Se amanhã as coisas não correrem de feição aos leões, haverá uma oportunidade soberana para medir o grau de confiança e de empatia de Bruno de Carvalho em relação a Marco Silva. Todos sabemos que foram os adeptos que mantiveram o treinador no cargo, insurgindo-se contra um despedimento iminente. Em caso de derrota, o presidente voltará a ter condições para contar espingardas. É ninguém passa do desprezo à admiração em tão curto período.