_

O que traz Fernando à Seleção

O que traz Fernando à Seleção

1 Diz José Antonio Camacho que o futebol começa no médio-centro, ideia segundo a qual o perfil técnico de quem atua naquela zona do terreno ajuda a definir as bases conceptuais e as preferências estéticas de um treinador – diz-me que pivô defensivo escolhes, dir-te-ei que futebol praticas. É uma função tão específica, tão peculiar, que nem todos os grandes intérpretes da história gostam de reparti-la. O argentino Redondo, um dos maiores de sempre, não fazia por menos: “Quando jogo com alguém ao lado é como se me tapassem um olho”. Zelosos do seu habitat, muitos rejeitam companhia. É como se tivessem de dividir o quarto com quem lhe altera as rotinas; que começa a mexer nas gavetas, a desarrumar as prateleiras e a deixar roupa espalhada pelo chão. Fernando queixou-se disso no FC Porto nesta época. William também prefere a solidão.

2 A Seleção Nacional não pode queixar-se com as opções para o Mundial do Brasil. Comecemos por Miguel Veloso: é um jogador com veludo nos pés e que inicia a construção mais atrás; sabe cuidar do espaço e intercepta dezenas de linhas de passe por jogo; é um bom interlocutor dos artistas, constitui solução nas bolas paradas e tem a vantagem de ser o dono do lugar desde a chegada de Paulo Bento. William Carvalho, a maior descoberta do futebol português dos últimos anos, tem amplitude funcional (bom a defender e cada vez melhor a construir), desarma, leva a bola e lança à distância; utiliza o físico exuberante nos duelos individuais e é a origem de boa parte do processo criativo do Sporting. Já atingiu dimensão extraordinária. Em breve será referência mundial.

PUB

3 Fernando é de outra estirpe: não representa o início da ação ofensiva mas nele acaba boa parte das intenções agressivas do adversário na aproximação à baliza. Joga com inteligência e intensidade máxima; vai, vem, vai outra vez e não perde posição; parece estar em vários pontos do campo ao mesmo tempo e, correndo muitas vezes o risco de levar problemas onde devia ter a solução, cumpre as mais variadas tarefas que lhe cabem com tremenda eficácia – não por acaso lhe chamam Polvo. Fernando é um fenómeno por velocidade de reação, agilidade e inteligência nos caminhos que percorre; na posição que defende, no tempo de entrada aos lances, no ataque à bola e na colocação perante os adversários. É um equilibrador sublime, que zela pela segurança do edifício, fechando quase todas as portas da área.

4 Em jeito de balanço, qualquer dos candidatos representa um modo diferente de interpretar função específica e muito relevante para o coletivo. Paulo Bento procura seis médios de zona central, o equivalente a dois por cada um dos vértices do triângulo que utiliza. Nas contas do grupo para o Brasil, a aritmética dos médios-centro não passa pela adição de três unidades a Moutinho, Meireles e outro elemento a sair de um lote mais vasto, de que fazem parte Amorim, Josué, Micael, Adrien, André Martins... São três enormes jogadores para duas vagas, pelo que se a lista para o Mundial fosse concebida hoje, a decisão não seria fácil: Veloso, William e Fernando? Por muito que custe, em nome do bom senso, o mais natural é que um deles fique de fora.

Riquelme como ave raríssima

PUB

Há ciclos que dificultam a afirmação de determinadas tarefas. A função 10 é uma delas

Dos tempos de Zidane e Rui Costa, para não recuar mais no tempo, o futebol criou uma espécie de 9 e meio, um maestro que se aproxima do golo e se afasta da equipa – Kaká é um bom exemplo. O 10 é uma espécie em vias de extinção. Em Portugal contam-se pelos dedos de uma das mãos aqueles que correspondem a esse perfil criativo – Evandro é exceção, Quintero tem elementos a ter em conta. Hoje em dia, aos 35 anos, Riquelme é o último dos moicanos. Sabe Deus o que tem sofrido para mostrar que ainda é possível ser um maestro genial.

Candeias talvez ainda vá a tempo

PUB

Há jogadores que passam pelos grandes palcos como relâmpagos que nunca mais se veem

Candeias prometeu uma vida no topo. Oriundo das escolas do FC Porto, tornou-se presença regular nas seleções nacionais jovens. As peregrinações por Varzim, Rio Ave, Huelva, P. Ferreira e Portimonense não esclareceram as dúvidas mas também não desfizeram as convicções mais otimistas. No Nacional tem consolidado estatuto de um dos atacantes mais interessantes do futebol português. A exibição frente ao campeão nacional não está ao alcance de todos: marcou, deu a marcar e foi, de longe, a figura do jogo. Talvez ainda vá a tempo de cumprir a promessa de uma grande carreira.

Quaresma tem de tratar dele

PUB

O fim do jogo na Madeira mostrou um génio do futebol na pele de um jogador descontrolado

Quaresma perdeu a cabeça porque o FC Porto estava em desvantagem e, não menos importante, porque ele próprio desperdiçara uma grande penalidade. Costuma dizer-se que um mau momento todos podem ter; mas RQ7, em plena luta por um lugar no Mundial do Brasil, estava proibido de recaída tão grande. Sobrepor agora o desvario ao talento é criminoso, porque recupera o argumento que servia de base à dúvida sobre a sua inclusão nos 23. RQ7 é uma das estrelas mais brilhantes da Liga e é assim que deve ser visto e analisado. Cabe-lhe não dar o flanco aos vampiros do mérito alheio.

Deixe o seu comentário
PUB
PUB