Opinião
Rui Dias Redator e repórter principal

O rebelde Gutiérrez

Joaquim Meirim reagia com desdém sempre que ouvia avaliações depreciativas sobre um jogador com o argumento de que não tinha cabeça. "É porque não tem tido bons treinadores", atirava o malogrado mestre, para quem a obrigação de um líder é "olhar para os seus homens da cabeça aos pés e não apenas do pescoço para baixo". Chega a Alvalade Teo Gutiérrez, colombiano com uma história feita de bairro e privação que o ajudou a ser malandro e atrevido; para quem cada golo é uma vitória com sabor a vingança sobre o destino desenhado a partir do lugar onde nasceu e no qual só a bola o estimulou a sonhar com o sucesso desportivo e a prosperidade social.

Teo Gutiérrez é um jogador maduro mas problemático; um transgressor que com sentido de orientação danificado, que rompe o senso comum e se recusa muitas vezes a orientar-se pelas rotinas que o reduzem a mero funcionário da fábrica. Aos 30 anos, tem impressionante lista de suplentes na seleção da Colômbia – Falcão, Jackson e Bacca acima de todos. É um avançado excecional, candidato a estrela maior e um dos melhores goleadores da Liga. Agora, o Sporting só precisa de saber quem contratou (e sabe) e ter quem o treine por inteiro (e tem). Porque o risco de apostar num craque rebelde, infrator assumido e habituado a fazer justiça pelas próprias mãos, só é real se, depois, esperarmos dele o comportamento imaculado de um monge tibetano, os gestos engomados de um mordomo britânico ou a inocência de menino de coro.

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PS: Faleceu Alcides Ghiggia, o homem que deu ao Uruguai o título mundial conquistado ao Brasil em 1950. Partiu aos 88 anos o herói para quem só três homens tiveram argumentos para calar o Maracanã com mais de 200 mil pessoas: ele, Frank Sinatra e o Papa João Paulo II. Que descanse em paz.

Por Rui Dias
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