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São imensos os factores que estão subjacentes à realização do grande dérbi, amanhã, no Estádio da Luz. Um dérbi é sempre um dérbi, mesmo em momentos de maior anemia competitiva de pelo menos um dos contendores, o que nem sequer é o caso do dérbi de amanhã, mas este tem diversos factores extra a rodeá-lo, entre os quais avulta o regresso de Jorge Jesus a um estádio que conhece bem, agora na condição de treinador do Sporting, o 'rival histórico' do Benfica.
Por mais que nos queiramos concentrar no momento das equipas ou na 'guerra institucional' que conhece agora um dos períodos mais críticos da sua história, muito por força da postura ofensiva (no duplo sentido) assumida pelo presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, que transporta consigo aquela sanha do adepto contra tudo aquilo que se relacione com a 'marca Benfica', não há nada a ultrapassar a expectativa que rodeia, em condições muito especiais, o regresso de Jorge Jesus ao Estádio da Luz.
Há um memorial benfiquista que referencia o lado luminoso da era Borges Coutinho e o lado obscuro de Vale e Azevedo, isto é, o tempo em que o Benfica se guiava por valores importantes relacionados com as chamadas 'boas condutas' e o tempo em que essas 'boas condutas' foram substituídas por um plano de apropriação, anti-ético e anti-tudo, de exploração abusiva da força (comercial) que está subjacente ao nome do Benfica.
Luís Filipe Vieira, há praticamente 12 anos na presidência e, portanto, com tempo suficiente para determinar a imagem pública que quer dar do Benfica, não pode ficar a meio da ponte. O maior investimento que Vieira pode fazer no Benfica, para além dos que já realizou, é fazer do Benfica um clube de 'boas práticas'. A máquina de propaganda que quer dominar e controlar tudo e todos não honra a grandeza do Benfica.
É nesta base que se projecta o regresso de Jorge Jesus à Luz. Luís Filipe Vieira não se deveria ter escondido atrás da sovietizada máquina de propaganda encarnada, a menos que Vieira 'seja', não apenas a extensão dessa máquina de propaganda, mas a própria máquina de propaganda. Tinha um plano. Tinha de assumi-lo. O plano era entrar num ciclo sem Jesus. Normal. Legítimo. A falta de diálogo antes da ruptura - com responsabilidades de parte a parte - já se manifestava; era evidente. Aquilo que o Benfica deu a Jesus e o que Jesus deu ao Benfica corresponderam a uma partilha demasiado significativa para um desfecho desta natureza, a culminar com uma acção judicial em que se tenta 'amortizar' o investimento feito no treinador em 14 milhões de euros.
Qual foi o 'crime' que JJ cometeu? Depois de perceber que não fazia parte do futuro do Benfica, não deixar que o Benfica se encarregasse de lhe definir um futuro (como emigrante)! Tudo o resto são birras, vinganças das figuras secundárias da chamada 'estrutura' para as quais JJ não tinha muito tempo a perder, com excessos, repito, de parte a parte, em que os juristas acabam de parturejar um conjunto de argumentos que não apagam o essencial: com verdade, nada disto teria acontecido. No plano moral, o processo é abominável.
Jorge Jesus deu tudo ao Benfica: disponibilidade, doação, empatia, chamando várias vezes o adepto para o conforto. Cobrou por isso? Mas quem não cobra em função do seu valor profissional? Quantos jogadores viram multiplicado o seu valor? JJ realizou 321 jogos oficiais pelo Benfica, dos quais ganhou 225, empatou 51 e perdeu 45. Ao longo de 6 épocas, as equipas de JJ marcaram 674 golos e sofreram 249. Deixou 10 títulos, uma cultura de trabalho e uma 'escola', dentro e em redor do campo.
Não há nenhum porta-voz oficial ou oficioso que me faça calar ou condicionar o pensamento: em vez de assobios, Jorge Jesus mereceria flores - flores vermelhas - neste seu regresso à Luz.
NOTA - Não me parece que Carlos Xistra tenha o perfil adequado para um dérbi de tamanha responsabilidade. Mas a arbitragem portuguesa é o que é: a extensão do ridículo em que o futebol caiu no geral (cobertura dos erros grosseiros dos árbitros, quando há formas de evitar que eles tenham expressão no resultado) e uma corporação frágil, com poucas competências.
* Texto escrito com a antiga ortografia
JARDIM DE ESTRELAS
***** - O dérbi do orgulho
A derrota do Benfica na Turquia e a goleada infligida pelo Sporting à modesta equipa do Skënderbeu produzem grande efeito sobre o dérbi? É sempre melhor ganhar do que perder na véspera de um jogo como é o Sporting-Benfica de amanhã. A confiança e a componente psicológica são muito importantes na competição. Mas é preciso avaliar quem são os jogadores que participaram nos jogos da Champions e da Liga Europa e vão 'subir' ao Estádio da Luz. Parece-me evidente que Rui Vitória, em contraste com o que havia acontecido na 'era JJ', está a apostar 'jogo a jogo', com a ambição no máximo e com o mínimo de gestão. No Sporting, a gestão de Jesus continua a privilegiar o campeonato. E, nesse sentido, a semana europeia, face às apostas efectuadas e perante os resultados conseguidos, coloca o Sporting numa posição aparentemente vantajosa. Não é esse, contudo, o principal factor que estará sobre o relvado. O Benfica vai ter um grande apoio nas bancadas e vai ter um jogador que pode fazer a diferença, se o jogo estiver muito 'atado': Gaitán. Sem esquecer Jonas. O Sporting não tem um jogador dessa dimensão técnica e capacidade desequilibradora, mais ainda quando perdeu Carrillo. Contudo, em termos colectivos, as equipas equivalem-se nos vícios e nas virtudes: Benfica mais forte no jogo aéreo (Luisão+Jardel+Mitroglou), Sporting sob o… 'efeito JJ'. O aspecto central vai ser a forma como as equipas vão reagir perante a pressão relacionada com o 'dérbi do orgulho'. A dimensão e a gestão desse orgulho vão determinar o vencedor. Se houver um.
O CACTO: SOS Futebol
Não vejo muita gente preocupada, mas já se percebeu que os acontecimentos em redor da FIFA e UEFA são uma ameaça ao modelo de negócio (potencialmente corrupto) que guiou o futebol nas últimas décadas?!…
Por Rui Santos