Direitos televisivos e alargamento não são farinha do mesmo saco. A água e o azeite não se misturam. Mário Figueiredo cometeu esse erro. Quis meter tudo no mesmo saco e a mistura tornou-se... explosiva. É que o alargamento, resolvido ao arrepio dos mais elementares princípios éticos e da sã concorrência, como resultado de um compromisso (eleitoral) que valeu a eleição ao actual presidente da Liga, serve agora de "arma de arremesso" por causa dos interesses relacionados com os direitos televisivos, em cuja matéria, curiosamente, nem Benfica, nem FC Porto, nem Sp. Braga se sentiram confortáveis para exercer o seu direito de voto.
Quer dizer: Mário Figueiredo não conseguiu desembaraçar-se do compromisso que o levou à presidência da Liga (o alargamento), tornando-se numa espécie de Robin dos Bosques dos tempos modernos, ainda tentou a "saída pelos fundos" – o menor dos males... – com o recurso à escapatória de uma liguilha (a quatro) no final do campeonato e os clubes, que queriam o alargamento mas não queriam a despromoção, ficaram numa posição eticamente muito frágil...
O presidente da Liga ficou refém dos clubes que o elegeram, com António Fiúsa a liderar todo o processo, e estaria agora numa posição um pouco mais confortável se, ao mesmo tempo, não tivesse despertado a "ira dos deuses", com a mui salutar discussão em torno da centralização dos direitos televisivos.
Esta é, sem dúvida, uma "boa causa", todavia muito difícil de concretizar – e as ausências na votação das SAD, em cujas estruturas se acha a Sportinveste, podem ter uma leitura imediata: o FC Porto e o Sp. Braga não vêem razões para hostilizar a Olivedesportos e encontram nela, inclusive, a "chave" para continuar a potenciar alguns dos seus negócios; o Benfica acha-se "a meio da ponte", por um lado a fazer "render o peixe" do argumento antimonopólio, para obrigar a uma proposta mais perto dos 30 M€/época e, por outro, com dificuldades em descolar totalmente de uma dinâmica em que se envolveu nos últimos anos e da qual vai evidenciar muitas dificuldades em se demarcar...
Em síntese: Mário Figueiredo colocou-se entre a pressão dos "pequenos" e a impressão dos "grandes": já não lhe bastava ter a oposição do FC Porto por ter sido o advogado que defendeu os interesses do Marítimo no famoso "caso Kléber" – o que lhe valeu agora um ataque mais feroz por parte da administração portista em nome da "integridade das competições"; vai ter de arrostar agora com a força dos clubes que no fundo alimentaram o negócio da Olivedesportos, alimentando-se a si próprios.
Só uma imperdoável distracção (talvez o síndroma do "rei na barriga") obstou que o "candidato da Olivedesportos" (António Laranjo) não ganhasse as eleições.
Neste "cenário de asfixia" (imposto por "pequenos", "grandes", Olivedesportos, FPF, Estado), Mário Figueiredo não vai resistir. Se, por milagre, o fizesse, então sim teríamos um renovado futebol português – e a alvorada de uma "nova ordem". Tão necessária para romper com esta sensação de controlo e de "vitórias antecipadas"...