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Opinião
Carlos Amado da Silva Presidente da Federação Portuguesa de Rugby

O silêncio que diminuiu um feito histórico

Há momentos na vida desportiva de um país que deviam ser inequívocos e celebrados sem reservas. 

 O recente título europeu conquistado por Portugal no rugby é, sem qualquer margem para dúvida, um desses momentos.  

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Na verdade, não é apenas um momento — são dois. Portugal sagrou-se Campeão da Europa no escalão sénior e também no escalão de Sub-20, um duplo feito de enorme relevância desportiva e estratégica, que evidencia a consistência e a qualidade do trabalho desenvolvido no rugby nacional, designadamente nos Clubes e na FPR.  

E, no entanto, o que se tem verificado é uma preocupante mistura de desconhecimento e alheamento perante conquistas que deviam orgulhar todo o país.  

A propósito, convém desmistificar e lembrar que, no rugby europeu, a única entidade com competência para atribuir títulos de Campeão da Europa é a Rugby Europa.  

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Esta organização congrega 49 federações nacionais e é a legítima confederação continental da modalidade. Entre essas federações encontram-se as que integram o chamado “Torneio das Seis Nações”. Contudo, estas federações — apesar do seu peso histórico e mediático — não estão fora da Rugby Europa. Pelo contrário: fazem parte integrante da estrutura, beneficiando apenas de um regime particular que lhes permite organizarem-se de forma autónoma do ponto de vista competitivo e financeiro. 

 Torneio não é campeonato! O prestigiado Torneio das Seis Nações é, como o próprio nome indica, um torneio anual entre seis seleções. É uma competição fechada, histórica e de enorme relevância mediática — e isso não está em causa. Mas importa clarificar: o vencedor do Torneio das Seis Nações é o vencedor de um torneio, não é Campeão da Europa.   

Esta distinção, que pode parecer semântica, é na verdade estrutural. No quadro competitivo europeu, os Campeonatos da Europa são organizados pela Rugby Europa, em diferentes divisões e escalões etários, e os seus vencedores são, esses sim, os legítimos Campeões da Europa. Portugal é hoje prova inequívoca dessa realidade — tanto no escalão sénior como no Sub-20.  

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A ausência das Seis Nações não invalida o título de Campeão, porquanto, por opção própria, as seleções das Seis Nações não participam nos Campeonatos da Europa organizados pela Rugby Europa. Essa escolha — legítima — não pode, contudo, desvirtuar a realidade competitiva.  

Em todas as modalidades desportivas, existem estruturas continentais que atribuem títulos oficiais, independentemente da participação de todos os países mais fortes. O rugby não é exceção.  

Assim, Portugal é Campeão da Europa — em seniores e em Sub-20 — porque venceu as competições que estatutariamente atribuem esses títulos.  

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Um sinal de futuro, não apenas um feito isolado. O duplo título europeu não é apenas um sucesso pontual. É um sinal claro de que existe um caminho estruturado, sustentado e com futuro no rugby português. Ganhar nos Sub-20 significa garantir continuidade, profundidade e ambição. Ganhar em seniores confirma maturidade, competitividade e afirmação internacional. Juntos, estes títulos representam algo raro: presente e futuro alinhados no sucesso.  

Esta não é uma discussão nova, nem nasce de um momento de entusiasmo nacional. É uma questão que tem sido levantada, de forma consistente, nos fóruns próprios da Rugby Europa — incluindo no seu “board” — por quem conhece profundamente a estrutura da modalidade. Defender a legitimidade do título europeu não é um ato circunstancial. É uma posição de princípio, sustentada ao longo do tempo, independentemente de quem vence. O que está em causa, o que verdadeiramente preocupa não é a divergência de opinião... essa é saudável. O que preocupa é o desconhecimento generalizado e a incapacidade de reconhecer feitos que deveriam unir, valorizar e projetar o país. Desvalorizar estes títulos é, no fundo, desvalorizar os atletas, os treinadores, os dirigentes, os Clubes e todo um ecossistema que tem trabalhado, muitas vezes longe dos holofotes, para alcançar este nível. 

 Portugal alcançou um feito histórico no rugby europeu. É duplamente Campeão da Europa — em seniores e Sub-20 — de pleno direito, por mérito desportivo e reconhecimento institucional. O mínimo que se exige é que esses feitos sejam compreendidos, respeitados e celebrados como tal. Ignorá-los não diminui os títulos. Mas diminui-nos a todos. 

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Por Carlos Amado da Silva
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