O "suicídio" de Carlos Martins

Faço parte da enorme legião de apreciadores das capacidades técnicas de Carlos Martins. Não chego ao ponto de o considerar um fora de série - como muitos defendem -, mas penso que, em condições normais, tem talento de sobra para ser não só titular indiscutível do Sporting, mas também para merecer regulares convocatórias para a Selecção Nacional, assim como a cobiça de clubes internacionais de nomeada.

Mas, a verdade é que os anos vão passando e Carlos Martins teima em não aproveitar um dom invejável. Eu sei que as inúmeras lesões - não me recordo de um jogador profissional, com apenas 24 anos, ter estado tantas vezes lesionado, sendo que a maioria das paragens são motivadas por problemas difíceis de observar durante os jogos e treinos - não têm contribuído para a necessária estabilização da sua carreira, mas creio ser importante realçar que nem tudo se deve ao azar ou à falta de sorte.

PUB

Paulo Bento foi claro, no final de 2006, quando disse que levava às costas todos os jogadores que estivessem dispostos "a ir à guerra". Tal afirmação, num momento em que se tentava perceber mais uma ausência de Carlos Martins numa lista de convocados, funcionou como uma mensagem clara e inequívoca: o jogador tinha de mudar de atitude e tentar, de uma vez por todas, ser alguém no plantel do Sporting.

No sábado passado, entre outras alterações introduzidas na equipa, Bento escalou Martins. A ausência de Nani, por exemplo, abria a porta para a técnica do médio poder desequilibrar. Mas, para não variar, o que aconteceu foi diferente. Bem diferente. Martins não engatou uma prestação capaz de o recuperar junto do treinador, como ainda conseguiu perder muito do capital de confiança que tinha perante uma considerável parte dos associados leoninos. Ao "pedir" dois cartões amarelos quase consecutivos - tão desnecessários quanto estúpidos e justos, embora qualquer uma das situações pudesse, dependendo do critério do juiz, valer logo o vermelho directo -, Martins desperdiçou a oportunidade e deixou a sua equipa em extremas dificuldades. O empate foi um mal menor para os companheiros. Só que, no dia seguinte, o FC Porto capitalizou a oferta e aumentou a vantagem na liderança do campeonato para 7 pontos.

Posso estar enganado, mas se a 25 de Setembro - numa crónica intitulada "Novela mexicana na Luz - palpitei um célere adeus de Kikin Fonseca ao Benfica, agora arrisco dizer que Carlos Martins não deve voltar a vestir a camisola do Sporting. Não sei se será emprestado, vendido ou oferecido. O que me parece é que em Alvalade não há mais espaço de manobra para um enorme talento que, pelo andar da carruagem, talvez nunca chegue a ser um futebolista "a sério". A culpa deste provável divórcio pode ser de muita gente, inclusive daqueles que asseguram não ter Martins um comportamento social compatível com o estatuto de atleta de alta competição, mas tenho a certeza que o visado será quem mais responsabilidades tem. O que ele fez no Restelo foi um autêntico "suicídio" profissional.

PUB

PS - A Liga regressou à acção. Até que enfim! O futebol praticado foi uma maravilha, com partidas repletas de golos. O melhor é parar durante mais um mês para o pessoal recarregar baterias, não concordam?

Deixe o seu comentário
PUB
PUB