“O que eu disse é que independentemente de poder ir ao Euro, os jogadores que forem comigo vão saber da minha situação antes de irmos ao Euro, isto é, se eu já renovei, se eu não vou renovar, eu não vou com a minha situação indefinida para o Euro 2012”
Paulo Bento após o Portugal-Bósnia (15/11/2011)
Foram necessários cerca de três meses, mais precisamente 105 dias para um jornalista perguntar ao seleccionador como se achava o seu processo de renovação contratual, depois das declarações proferidas por Paulo Bento logo após ter garantido a qualificação de Portugal para o Euro’2012, através de playoff frente à Bósnia. O esclarecimento e a pergunta tardavam (algo impossível em qualquer outro país da União Europeia, o que diz muito sobre as nossas dependências e atrasos...), mas a resposta foi ainda mais surpreendente: ‘Até ao Europeu a minha situação [contratual] fica resolvida.’ Quer dizer, depois do estrondo do ‘ultimato’ do seleccionador; depois da eleição de Fernando Gomes para a presidência da FPF; depois da tomada de posse da ‘nova Federação’; depois de 105 dias de tabu relativamente a uma matéria que, por respeito aos acordos existentes, nunca deveria ter sido suscitada, o tabu é para continuar, no limite, ‘até ao Europeu’. Podemos ter, então, em tese, 205 dias de tabu. Faz algum sentido?
AFPF, neste caso, fez o que tinha a fazer: Fernando Gomes, no discurso da sua tomada de posse, reiterou a confiança no seleccionador nacional (“O país acredita nas suas capacidades, na mais-valia que nos próximos anos a sua acção pode significar para o futebol de Portugal. De mim, da minha equipa, tem, já o sabia, absoluta confiança”). Há um contrato válido até ao final do Euro e é nesse momento que faz sentido uma avaliação sobre a campanha de Paulo Bento como seleccionador nacional e as condições reunidas para continuar a liderar o ‘projecto desportivo’ da FPF.
Não é desejável que este tabu se prolongue mais tempo e das duas, uma: ou Paulo Bento, através do seu autoproclamado bom senso, tem a humildade de reconhecer que se excedeu nas suas exigências e recua, em nome da estabilidade da Selecção Nacional ou força quem o tem acompanhado neste processo a tomar uma posição sobre um alegado interesse nos seus serviços e deixa a FPF, a tempo de esta encontrar uma solução, com o mínimo de afectação para os interesses de Portugal.
Não é fácil recuar? Não. Mas é a credibilidade do seleccionador que está em jogo. Muito simples: ou ganha o respeito de todos (inclusive no seu grupo de trabalho) ou fica numa situação de grande fragilidade. A frontalidade é um princípio de vida; não é um meio (no sentido da exploração da oportunidade) para se chegar a um fim. O seleccionador tem de optar entre o aparente conforto de um contrato reforçado (temporalmente) e o interesse de Portugal. O resto virá por acréscimo, nos quartos de final, nas meias finais ou na final.
Foi Paulo Bento quem escolheu este caminho e mais ninguém. Este tabu não interessa à Selecção Nacional. E a FPF não pode ceder nem a eventuais pressões nem correr o risco de ficar de calças na mão. Já chega de brincadeira. Decida-se: ou fica ou sai. Ficar no meio da ponte é que não.