_

Opinião
Emanuel Macedo de Medeiros Fundador e CEO Global da SIGA

O teste da confiança

Tempos houve em que o desporto podia viver apenas da paixão. Hoje, já não pode. Hoje, a reputação é rainha.

Nas salas dos conselhos de administração. Nos gabinetes governamentais. Nos mercados financeiros. Na mente de patrocinadores, operadores de media, investidores, governos e adeptos, a confiança tornou-se a moeda mais valiosa do mundo.

PUB

O desporto não é exceção. Aliás, é talvez no desporto que a batalha pela confiança assume maior relevância.

Olhemos para o Mundial FIFA 2026.

Os números são impressionantes. A FIFA prevê receitas de cerca de 13 mil milhões de dólares para o ciclo comercial de 2023–2026, estabelecendo um novo recorde para a organização. Trata-se do ciclo comercial de quatro anos da FIFA, e não apenas das receitas de um único torneio. O rigor importa. Mas o contexto também. O Mundial alargado a 48 seleções, organizado pelos Estados Unidos, México e Canadá, é o principal motor desse crescimento.

PUB

A história da bilhética é igualmente reveladora. Até ao final de novembro de 2025, a FIFA tinha anunciado a venda de quase dois milhões de bilhetes nas duas primeiras fases de comercialização. Este mês, o Presidente da FIFA já falava em mais de seis milhões de bilhetes vendidos, ao mesmo tempo que defendia os preços perante um debate crescente sobre a sua acessibilidade e custo.

Sim, o Mundial é maior. Mais rico. Mais mediático. Mais global do que nunca.

Mas há um ponto que demasiados continuam a ignorar: a dimensão não é sinónimo de legitimidade.

PUB

O dinheiro não compra confiança. Segue-a.

As marcas não investem milhares de milhões porque um jogo de futebol dura noventa minutos. Investem porque o futebol continua a ser uma das raras plataformas globais capazes de unir pessoas para além de fronteiras, culturas e ideologias.

O desporto em geral e o futebol em particular captam atenção. Inspiram crença. Criam ligações emocionais que políticos, empresas e organizações de media dificilmente conseguem replicar.

PUB

É por isso que a reputação se tornou o ativo mais estratégico do desporto. E é por isso que a sua perda representa hoje o maior risco para o setor.

Durante demasiado tempo, a indústria conviveu com uma contradição desconfortável. Fala incessantemente de valores, enquanto continua demasiadas vezes a coexistir com ameaças capazes de os destruir. Falhas de governança. Corrupção. Branqueamento de capitais. Manipulação de competições. Conflitos de interesses. Abuso de poder. Falta de transparência. Fraca responsabilização.

Cada escândalo tem um custo. Não apenas um custo moral. Mas um custo comercial. Um custo financeiro. Um custo reputacional.

PUB

A confiança abandona a sala mais depressa do que o dinheiro. E quando a confiança desaparece, o dinheiro segue-lhe as pisadas.

É por isso que o anúncio feito esta semana pela Sport Integrity Global Alliance (SIGA) é tão importante.

Não porque acrescenta mais um certificado.

PUB

Não porque cria mais um acrónimo institucional.

Não porque o desporto precisasse de mais uma conversa elevada sobre integridade.

É importante porque a SIGA decidiu agir.

PUB

Abrimos oficialmente as candidaturas para entidades que pretendam tornar-se Organismos de Certificação Acreditados pela SIGA, transformando o nosso modelo independente de certificação numa infraestrutura global escalável.

Dito de forma muito simples: entidades independentes, qualificadas e acreditadas poderão avaliar organizações desportivas de acordo com os Standards Universais da SIGA sobre Integridade no Desporto.

E isso muda a conversa!

PUB

Durante anos, o desporto viveu de declarações. “Defendemos a integridade.” “Promovemos a transparência.” “Cumprimos os mais elevados padrões.”

Muito bem. Agora, provem-no.

A era dos discursos terminou. A era da evidência começou.

PUB

Os patrocinadores querem evidências. Os investidores querem evidências. Os governos querem evidências. Os operadores de media querem evidências. Os adeptos querem evidências.

Todos fazem a mesma pergunta: conseguem demonstrar aquilo que afirmam?

As organizações que compreenderem esta realidade liderarão a próxima era do desporto. As que não compreenderem serão expostas por ela.

PUB

Porque os vencedores da próxima década não serão apenas os mais ricos, os maiores ou os mais ruidosos. Serão, sim, os mais confiáveis.

A confiança não é uma abstração. A confiança é infraestrutura. A confiança é capital. A confiança é vantagem competitiva.

E, ao contrário do marketing, a confiança não se compra. Conquista-se!

PUB

É por isso que esta iniciativa da SIGA é tão relevante. Porque separa aqueles que falam daqueles que agem. Aqueles que emitem comunicados daqueles que aceitam ser avaliados. Aqueles que se escondem atrás de slogans daqueles que estão preparados para ser medidos por padrões objetivos e independentes.

Esta é a linha traçada na areia.

Por isso, se acredita na integridade, dê um passo em frente.

PUB

Se afirma liderar, lidere pelo exemplo.

Se diz que não tem nada a esconder, abra as portas.

Se realmente pratica aquilo que defende, aceite o teste.

PUB

O Mundial demonstrará o poder extraordinário do desporto. O seu alcance. A sua influência. A sua beleza. As suas contradições.

Mas o futuro do desporto não será decidido apenas pelas receitas. Será decidido - isso sim - pela reputação.

O Teste da Confiança começou.

PUB

E, num mundo onde a reputação é rainha, aqueles que se recusarem a fazê-lo já nos deram a sua resposta.

Por Emanuel Macedo de Medeiros
Deixe o seu comentário
PUB
PUB