O treinador

TUDO OU NADA – O que é um treinador? Pode ser solução ou problema; mestre ou embuste; génio ou louco; profeta ou charlatão; pode ser uma operação de somar, para depois multiplicar, ou uma conta de subtrair que antecede a divisão fatal. O que é um treinador? Pode ser tudo, se exercer sobre a bola a magia necessária para a fazer entrar com regularidade na baliza do adversário, ou nada, se o feitiço se virar contra ele e por melhor que trabalhe, por mais que estimule as qualidades dos seus jogadores, o golo e a sorte lhe virarem definitivamente as costas.

LENÇOS BRANCOS – Nas Antas, os lenços brancos voltaram a sair dos bolsos dos adeptos, porque a bola não entrou na baliza do Sp. Braga. O treinador também tem essa particularidade: concentra o descontentamento. Faz parte da sua vida repartir as vitórias, nem sempre em partes iguais – normalmente em seu prejuízo –, da mesma forma que assume a responsabilidade total das derrotas – exagero que também o penaliza. No saco da intolerância despejado sobre Octávio Machado estava um resumo que incluia os pecados de Pena, as lesões (crónicas?) de Esnaider e a desinspiração de Deco. Estava a impaciência em relação a Postiga e Paulo Costa, e nem a esperança inerente ao regresso de Vítor Baía evitou aquela cena final.

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RESPEITO – Mas o treinador também pode ser resultado de uma convicção global, a imagem definitiva da competência, crédito de um trabalho que o deve tornar menos dependente do aleatório. José Mota não pediu tempo nem arranjou desculpas esfarrapadas, exigiu apenas respeito, sobretudo quando o resumo de uma semana de trabalho se reduzia sucessivamente a derrotas que minavam o moral, atrofiavam qualidades e aproximavam a equipa da rotura consigo mesma. O Paços de Ferreira, que acredita no seu treinador, em vez de reclamar o chicote tomou a decisão certa: perguntou--lhe se havia motivos de preocupação.

DESASTRE – Frente ao Sporting, a equipa fez 25' de espantosa segurança nas trocas de bola, com um critério irrepreensível nos movimentos colectivos, dando forma a um sistema no qual toda a gente domina perfeitamente a sua função. Perante adversário assustado, a jogar aos repelões e em contra-ataque, suportado apenas na superior qualidade dos seus elementos, sofreu um golo de livre directo, mais três na sequência de erros individuais clamorosos e chegou ao intervalo a perder por 0-4. O desastre acabou em seis. Uma semana depois, no Bessa, o campeão acrescentou cinco dados à crise.

TRAIÇÕES – Os dirigentes ou acreditam nos treinadores e vão com eles até às últimas consequências, repartindo a responsabilidade, ou não acreditam, e sacodem injusta e cobardemente a água do capote. Nessa altura tornam-se vulneráveis à pressão, precipitam-se no comprometimento com o exterior e acabam por cometer os golpes baixos de traições de que mais tarde se arrependem na maioria dos casos. No fim, indemnizam com elogios e pagam o que devem (quando pagam) em suaves prestações mensais. Até à indignidade seguinte.

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