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Os golos do Pais

Os golos do Pais

Fui jornalista aos dez anos. Não por vocação pelo jornalismo; por devoção ao Benfica. Em 1983/84, escrevi um semanário pessoal do campeonato. Todas as segundas, descrevia o jogo. Cada golo do Nené era o nascimento de um planeta, uma cabeçada do Stromberg era um mar arrebatador, as defesas do Bento eram dos deuses, cada jogo era uma epopeia gloriosa de uma gesta heroica, cada golo era um golpe homérico por Helena em Tróia. Os nossos olhos não eram então as TV. Eram os jornais.

Este texto é sobre a honra de escrever no Record. Devo-o ao diretor do jornal que hoje sai e ao homem que fica: ao Alexandre Pais. Ele está numa altura que eu não alcanço – mas persigo. É a estatura que só a nobreza conquista.

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O Alexandre convidou-me para colunista há três anos. A cada semana, tento servir os leitores e honrar o convite. Como ando à chuva, molho-me amiúde: tive direito a uma conferência de imprensa de João Lagos, que me acusou de querer destruí-lo, quando eu comentei a falência, triste mas verdadeira, da sua empresa; a um processo do Benfica, por questionar a venda de Roberto, sendo acusado de usar “até rimas” (!); a um comunicado crítico do presidente do Sporting, por defender a reestruturação mas dizer que ela inclui um perdão de dívida. Só não tive problemas com o FC Porto: têm as suas manias mas não são copinhos de leite. Fiz amigos. Aprendi. E continuei aprendendo com os textos e com a conduta do Alexandre.

Sei o que é ser diretor de jornal, o que são pressões, impressões, exigências. Nestes anos, tive problemas de que não me queixo, mas receio ter criado alguns ao Alexandre. Nunca me pediu nada. Nunca se esquivou, pediu para tirar uma palavra, acrescentar uma nota. Isto mostra a força de uma direção. E revela a cepa de um homem.

O Record é o maior e o melhor diário desportivo português. E hoje é (bem) entregue pelo Alexandre Pais. No jornalismo, a glória nunca perdura no espaço público, mas a honra fica para sempre na admiração privada. Salve Alexandre Pais. Longa vida. A ti e ao teu legado. Como os golos do Nené.

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