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Os hinos cantados por Brahimi

Os hinos cantados por Brahimi

É uma estrela ingénua, que se expressa com irresponsabilidade criativa, patente em muitos gestos, movimentos e decisões. As plateias não resistem a artistas tão grandes e genuínos. A nação azul e branca encontrou um novo herói

1 Há uma espécie de jogadores que os domadores de talentos nunca conseguirão vergar: os ilusionistas que recusam ser meros funcionários das fábricas. Esses, que acreditam nas soluções personalizadas apresentadas em cada instante, suscitam diferentes sensações nos treinadores. No Mundial de 1958, Vicente Feola via um jogo da Suécia na televisão e deslumbrou-se com a habilidade de Hamrin. O selecionador brasileiro comentou em voz alta: “É um perigo. Até parece sul-americano.” Nilton Santos, um dos defesas mais aclamados da história, não se conteve: “O Pelé e o Garrincha são muito melhores do que esse tipo e você não os põe a jogar.” Brahimi está imune a essa perversidade: é o terror para os generais inimigos e uma bênção para Lopetegui.

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2 Na noite em que se estreou na Champions marcou tantos golos como em toda a época passada ao serviço do Granada, sinal de que o arranque no Dragão está a superar as melhores expectativas. O franco-argelino mantém a fantasia com que inventa situações de desequilíbrio nas imediações da baliza e muniu-se com argumentos para acrescentar poder de síntese e precisão ao último toque. Consolida assim a imagem de reserva espiritual de um futebol que já só existe na nossa imaginação: que cumpra a condição de jogo; seja sensível ao espetáculo; não se reduza ao negócio e lute pela sobrevivência como expressão de arte. Brahimi interpreta hinos cuja beleza, significado e eloquência sensibilizam todos os adeptos, incluindo os que não são do FC Porto.

3 É lindo quando domina, arranca, trava, engana e prossegue a viagem, como se ir por ali fora, fugindo a adversários sem pudor, fosse a coisa mais fácil do mundo. Quando sai bem (e sai muitas vezes), o perigo aumenta a cada metro; se sai menos bem aumentam as faltas em zonas de risco, multiplicam-se os cartões e cresce uma agitação que também contribui para desestabilizar. Está ainda por esclarecer em que função será mais útil aquele estilo de progressão com a bola no pé e participação reduzida dos companheiros. Como avançado, a partir dos flancos, pode arriscar mais, na medida em que o erro afeta menos o equilíbrio da equipa; na qualidade de médio, mesmo tendo já deslumbrado a plateia portista, levanta o problema habitual: na zona onde o jogo se concebe, é melhor fazer o que se deve do que fazer o que se sente.

4 Génio de magia instantânea, que percorre terrenos minados com a inocência trazida das ruas onde ganhou a paixão pela bola, é um fenómeno de condução e drible; verdade e mentira; emoção e golo; aventura e eficácia. Mesmo depois de frequentar a escola como internacional francês entre os sub-16 e os sub-21, não danificou o instinto nem mutilou a imaginação; antes valorizou a liberdade e o talento num jogo que dá muita importância a elementos repressivos como organização e disciplina. Brahimi é uma estrela simples, por vezes ingénua, que assimilou o estritamente necessário do ensino académico e se expressa com a irresponsabilidade criativa de muitos gestos, movimentos e decisões infantis. As plateias não resistem a artistas tão grandes e genuínos. A nação azul e branca encontrou um novo herói.

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João Mário tem muito para dar

A titularidade de João Mário em Barcelos foi aposta anunciada num jogador com muito para dar ao Sporting e ao futebol português. Agora que André Martins baixou, Marco Silva recorreu a um centrocampista com menos golo mas mais sentido de organização; com menos magia mas mais intensidade; com menos soluções contundentes mas mais abrangência e participação no jogo. Numa equipa sem margem para erro, João Mário tem a vantagem de oferecer valores mais concretos (desde já duas assistências) do que os concorrentes. Um candidato à Seleção.

Cérebro grego em curto-circuito

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Samaris tenta acertar a ação como pivot-defensivo. É notório que está a ler a cartilha do treinador e a fazer um esforço tremendo para entender as regras da posição 6 aplicadas ao Benfica de Jesus. O grego tenta posicionar-se bem, tomar as decisões corretas, definir se deve ir ou ficar, sair ao adversário ou defender o espaço; mas o caos atinge proporções tão elevadas que perde pelo caminho qualidades como visão, técnica de passe, agilidade, condução segura e articulação motora. Enquanto durar o curto-circuito ser-lhe-á muito difícil assumir a herança de Javi, Matic e Fejsa.

A grande obra de Lito Vidigal

Lito Vidigal mantém o discurso ao qual não mudou uma vírgula. Agora que tem dez pontos em cinco jornadas e está em zona europeia, repete o que disse antes do arranque da Liga, quando o Belenenses era candidato certo à luta pela permanência – estatuto que, de resto, ainda não perdeu. Lito devolveu a esperança a um clube habituado a sofrer e multiplicou alegria onde só havia preocupação e até desespero. Os números não enganam: em 12 jogos pelos azuis (7 em 2013/14) somou 21 pontos. A obra confirma-o como treinador competente que é, feitas as contas, o homem certo no lugar certo.

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