Opinião
Pedro Peres Master in Sports Psychology

Os treinadores são despedidos por terem objetivos

Aproxima-se mais uma paragem nos principais campeonatos para jogos de futebol entre seleções. Tendo presente algumas análises nos meios especializados, estes períodos são propícios ao tradicional bailado de treinadores com profundas semelhanças à dança das cadeiras, tão presente nas festas de condomínio nos anos oitenta.

A agitação verifica-se um pouco por esse mundo fora, ainda assim, o nosso país sempre foi especialista na utilização desta habilidade e, ultimamente, a faceta tem assumido contornos de verdadeira mestria, pois as movimentações dos técnicos já quase funcionam como as célebres trocas de cromos de caderneta.

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O método simplifica bastante a tarefa de recrutamento aos dirigentes e acaba por agradar aos próprios treinadores pelo facto de apenas necessitarem algum cuidado em memorizar a designação do novo emblema para que nas abordagens aos jogadores e jornalistas não acabem por utilizar expressões identificáveis com o clube representado até à véspera.

Assim sendo, foi com enorme espanto que à oitava jornada desta época desportiva ainda não tivesse existido qualquer troca de treinador na principal liga de futebol de Portugal. Uma novidade! Situação não repetida desde 2002-2003. Contudo, no mesmo período, a segunda liga apresentava uma fiel colagem à tradicional veia estratégica nacional e as cinco demissões de treinadores - ou numa linguagem mais própria do contexto "chicotadas psicológicas" – refletiam já um andamento condizente com as práticas lusitanas.

A opção pela dispensa intempestiva dos treinadores, entre muros, é observada como qualquer outra estratégia de gestão e no final da época, os adeptos vão considerá-la um golpe genial ou um verdadeiro fracasso em função da equipa cumprir ou não os objetivos de resultado definidos pelo clube.

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No respeitante a objetivos, os grandes mestres da inteligência emocional, dedicados ao estudo das dinâmicas dos grupos e dos processos de liderança, apontam para a necessidade de construir objetivos claros, específicos e impregnados de tangibilidade. A esta última qualidade está igualmente associada a perceção de controlo das ações, onde o indivíduo assume um papel decisivo na obtenção de resultados como consequência da sua atitude.

Ora, quando no início de cada nova temporada se definem os tradicionais intentos de chegar ao fim do campeonato no primeiro lugar, alcançar um lugar na tabela que permita o acesso às competições europeias ou manter a equipa a jogar na mesma competição na época seguinte, talvez se possam estar a subverter de alguma forma as premissas de uma boa definição de objetivos.

O primeiro constrangimento que salta à vista é a ausência da perceção de controlo desta tipologia de intenções. Sim, prefiro chamar-lhes intenções uma vez que enquanto objetivos, aqueles dependem muito mais de fatores externos do que dos próprios atores. Quando definimos como objetivo ganhar um campeonato de futebol, uma modalidade coletiva com tantos intervenientes a desejar o mesmo resultado final, estamos de facto a incorrer num risco considerável de não alcançar o propósito, exatamente por desfilarem no mesmo tabuleiro muitos elementos que não são controláveis internamente.

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Por outro lado, estas intenções apenas são concretizáveis no final da época ou muito perto desse momento, e tal como a literatura nos vai ensinando, o ser humano necessita de manter elevados os níveis de motivação para que também a disponibilidade de entrega e dedicação à tarefa promovam índices de performance conducentes a prestações competitivas de sucesso.

A título de ilustração recordo uma história de uma colega que em tempos idos, numa deslocação à desaparecida República Democrática Alemã para disputar uma partida de andebol, vivenciou, segundo a própria, dos maiores ensinamentos para a gestão e desenvolvimento dos grupos e equipas de trabalho.

Confidenciou-me ela que sendo a diferença de qualidade entre as equipas uma comparação sem qualquer sentido prático, o resultado final do jogo não foi de todo inesperado nem tão pouco exagerado e a velocidade galopante com que o marcador foi refletindo o poderio das adversárias alemãs correspondeu exatamente ao nível competitivo das partes.

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Surpreendente foi mesmo a capacidade demonstrada pelas atletas germânicas para se manterem sempre focadas e altamente motivadas, mesmo tendo pela frente uma equipa tão frágil quanto a portuguesa que desde cedo foi completamente incapaz para se constituir num obstáculo ao avanço avassalador da contenda.

Curiosa pela forma como teria sido possível manter aquela elevada prestação competitiva ao longo de todo o jogo, a minha colega quis questionar o treinador adversário sobre a estratégia utilizada.

O técnico revelou então, já esperar uma partida sem grande oposição no respeitante ao desfecho do marcador e que a sua ideia passou por tornar aquele jogo, de alguma forma, aliciante para as suas atletas. Nesse sentido, disse-lhe ter procurado criar objetivos específicos e determinados no tempo como: aumentar a percentagem de passes acertados, diminuir o tempo de recuperação da posse da bola, aumentar a diferença de golos no marcador, aumentar a percentagem de remates direcionados à baliza e reduzir o número de faltas cometidas por períodos de jogo para que as atletas tivessem sempre algo pelo que lutar, independentemente do resultado que se fosse verificando e para que, dessa maneira, se mantivessem focadas e motivadas na obtenção de metas volantes.

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Atentando a este exemplo, permito-me deduzir que talvez alguns dos treinadores demitidos acabem por ser vítimas de si mesmos pelo facto de aceitarem, à partida, objetivos de resultado a médio/longo prazo que os fragiliza até porque a sua concretização depende amplamente de fatores externos e não é consequência direta de um trabalho de qualidade, assente em profundo conhecimento e sabedoria.

Os treinadores permitem aos dirigentes definir os objetivos antes mesmo da sua contratação e com base em plantéis que apenas conhecerão superficialmente. A esta anuência com certeza não estará alheio o anseio de assumir o comando de uma equipa e, acima de tudo, o receio de ficar sem trabalhar por largo período de tempo.

Desta forma, alguns treinadores acabam por aceitar convites não propriamente por se revestirem de particular interesse e consistência, mas por se apresentarem como indispensáveis à necessidade de empreender atividade laboral.

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Perante este cenário, sou levado a acreditar na vantagem de uma formulação de objetivos mais apurada e sistematizada com a periodização de resultados mais encurtada no tempo de modo a promover a manutenção de elevados níveis de entusiasmo dos atletas perante a tarefa e, consequentemente, uma maior ansiedade competitiva saudável alicerçada na confiança legitimada pelo concretizar de metas ao longo do processo.

Os objetivos devem, então, relacionar-se mais com variáveis dependentes da ação dos atletas e do trabalho e evolução da dinâmica da equipa e afastar-se mais das metas que apenas se centram na obtenção de resultado, desconsiderando o caminho a percorrer até à obtenção deste tipo de sucesso tão pouco manejável.

A capacidade da equipa controlar a posse e a recuperação da posse da bola, a qualidade do passe, a eficácia na finalização, o número de faltas cometidas e sofridas, são algumas competências associadas ao sucesso do coletivo e de acordo com vários analistas especializados, o domínio deste tipo de tarefas é característico das equipas mais vezes vencedoras.

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Nessa linha, será justo acreditar numa estratégia que passe pela definição de objetivos de curto prazo, centrados na tarefa e no crescimento diário das dinâmicas de equipa. Onde o foco do treinador está, sobretudo, em utilizar metodologias promotoras do desenvolvimento da performance, assentes em metas específicas e criadoras de ambientes com bom clima e elevados níveis de motivação.

Na verdade, sabemos que são raras as situações em que as equipas não trabalham em função de objetivos de resultados a longo prazo e, por isso, é também legítimo pensar que os treinadores incorrem regularmente em despedimentos precoces, exatamente por terem objetivos, ou melhor apelidando estes: intenções.

Neste contexto, o próximo interregno dos campeonatos poderá indicar-nos se estamos a assistir este ano a uma inversão da tendência na primeira liga ou se, na verdade, esta divisão reiniciará o voo ascendente dos despedimentos, aproximando-se dos números representativos da normalidade que já verificamos na divisão inferior.

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Por Pedro Peres
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