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O melhor do FC Porto não é o treinador, não são os jogadores, não é o presidente, não são os adeptos, não é o estádio, não são os títulos. A maior riqueza do FC Porto é a estrutura que Pinto da Costa conseguiu criar e, a enformá-la, uma filosofia de competência, disciplina, rigor, sagacidade e pragmatismo.
Pedroto lançou as bases dessa fortaleza e Mourinho construiu a chapa de aço da cobertura. Mas a saída do actual treinador do Chelsea veio demonstrar que, afinal, havia uma falha de construção no bunker portista, uma fenda na blindagem que ninguém parece saber fechar.
A harmonia em que viveu o FCP nas últimas épocas permitiu construir um plantel absolutamente fantástico e de todo invulgar na pobreza franciscana que se instalou no futebol português. Era um património fabuloso, que Del Neri, lá das nuvens onde vivia, tentou delapidar, e que o bom Fernández, em claro desnorte, não tem sido capaz de aproveitar, perante a estranha complacência do exigente e querido líder. Dispensar Deco, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Alenitchev, Pedro Mendes, Derlei, Carlos Alberto, Maciel, Hugo Almeida... não será ir longe de mais? Ou Pinto da Costa terá uma vez mais razão?
Mr. Trap
Tive o gosto de manifestar, já há muitas semanas, o apreço que me merece o treinador do Benfica e como é bom para o nosso futebol contar com a colaboração de uma sumidade como Trapattoni. Na passada segunda-feira pude uma vez mais confirmar a craveira superior do italiano, que enfrentou aquela dúzia de maduros – se calhar, nem sócios do Benfica são... – que dispõe de tempo, paciência e feitio para ir mandar vir para os treinos. Mr. Trap tem uns 65 anos incríveis, repletos de vigor e lucidez. O seu problema é que ou faz depressa uma equipa daquela manta de retalhos – que tem lá magníficos jogadores, não exageremos – ou a “instituição” perde o respeito aos seus cabelos brancos e o põe na alheta. Já faltou mais.
Peseiro
O técnico do Sporting é o contrário de Trapattoni – não se pode considerar uma figura do futebol mundial. Mas também já teve de ouvir das boas dos adeptos e de ler toneladas de críticas de treinadores de bancada como eu, já viu os seus créditos pelas ruas da amargura e, com muita determinação, “agarrou-se ao book”, apanhou os cacos e reconstruiu pacientemente a sua equipa. Creio que ela ainda está longe do que pode e deve fazer, mas a força psicológica que Peseiro revelou, contra ventos e marés, e a condução do barco a um primeiro porto de abrigo são méritos que já ninguém lhe tira. Eu disse “contra ventos e marés”? Bem, o que queria dizer é que “agora o Sporting vai ter um rumo...” Sinal dos tempos.
JP & JF
Ninguém fala destes dois infatigáveis trabalhadores do futebol... E todavia Boavista e Sp. Braga estão lá no topo, entre os melhores da SuperLiga. É verdade que o nivelamento por baixo do futebol em Portugal favorece os clubes da segunda linha, que já têm condições de trabalho tão boas como os grandes e cujos jogadores já treinam tanto e tâo bem como os futebolistas dos grandes. Mas não é menos verdade que Pacheco e Jesualdo, não tendo o nome de Trapattoni, nem a capacidade de José Mourinho, estão a confirmar o inegável talento que lhes permite fazer de executantes talvez menos dotados, jogadores capazes de bater o pé às estrelinhas que resistem em ficar por cá. E mais surpresas vamos ter, isso é seguro.
O leão do deserto
Tudo foi já dito e escrito sobre o atraso na chegada de Liedson a Lisboa e tudo já foi dito e escrito sobre a excelência do golo que abriu o marcador no clássido de sábado em Alvalade e sem o qual o resultado do derby poderia bem ter sido outro. Não, sobre esse magnífico momento de futebol tudo quanto ainda se consiga dizer não será de mais. É preciso, primeiro, ter em conta a estatura do brasileiro (1,75m) e o seu peso-pluma (apenas 63kg). Depois, sublinhar o relativo isolamento do predador verde-e-branco, autêntico leão no deserto da área adversária, com plenos poderes para usar as garras, mas... sozinho. Pois foi este jogador franzino quem se furtou aos 183 centímetros e aos 80 quilos de Ricardo Rocha, e foi lá acima, ao encontro do centro a compasso de Rochemback, girar a cabeça de bailarino e arrumar a menina na gaveta. Simplesmente genial!
Cavém
Onome verdadeiro ficou-me desde os tempos de menino e moço: Domiciano Barrocal Gomes, mais conhecido no mundo da bola como Cavém. Creio que ainda o vi jogar, já lá vai meio século, no Sporting da Covilhã, camisola que também me recordo de ter visto no tronco desse médio sublime que foi Fernando Cabrita. Vibrei depois com os seus êxitos no Benfica, vi-lhe grandes exibições como extremo, médio e mesmo defesa, apreciava a velocidade e o entusiasmo que punha no jogo. Era, esse sim – como Coluna, como José Águas, como Ângelo –, um jogador que sentia a camisola, um jogador à Benfica. Agora, com a sua morte, dou comigo a pensar como a nossa memória honra tão pouco homens simples que fizeram tanto...