Predador com truques nos pés

Predador com truques nos pés

1 É um conversador com riqueza verbal deslumbrante, assente em virtudes hipnóticas de encantador de serpentes. A bola pode chegar-lhe nervosa, cheia de força ou efeito excessivo, que ele adormece-a ali mesmo, com qualquer parte do corpo - parecem golpes de magia que obedecem a um estalar de dedos. Montero assombra com ousadias de beleza descomunal, revela instinto simplificador notável, faz tudo bem e ainda oferece invenções que arrebatam as bancadas. O estilo é perfeito para as associações curtas de progressão participada, a um ou dois toques, com as quais descobre espaços que se julgavam inexistentes; mas também serve para épicas aventuras individuais, concluídas com aparições angélicas na chegada à área e que, nos melhores dias, não raramente acabam com a bola na baliza adversária.

2 Porque o mundo não é perfeito, Montero vive na fronteira entre milagres de clarividência e a expressão sonâmbula que, a espaços, caracteriza a sua entrega ao jogo - alheia-se da realidade e chega mesmo a desaparecer de circulação. É como se, de repente, viajasse para um mundo longínquo, fora da realidade com que deveria comprometer-se por inteiro; como se estivesse em pleno campo de batalha, no meio de tiros, rebentamento de bombas e ataques aéreos, e andasse por ali de headphones nos ouvidos, num mundo de sonho, entregue à sua música, indiferente ao cenário coletivo de pânico, empenho e luta pela sobrevivência. Esses parênteses de ausência, que o afastam de algumas necessidades quotidianas da equipa, têm atrasado a afirmação como estrela do Sporting.

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3 São quebras difíceis de entender porque, se está focado no jogo e interpreta bem cada etapa do seu todo, revela grande tensão competitiva e uma vontade indómita de se mostrar como permanente auxílio ao portador da bola. Esse espírito dedicado, que também pode ser solene e magnético, traduz-se, afinal, no orgulho com que expressa a ambição como elemento do exército leonino. Mais do que um mero avançado, é um grande jogador, imaginativo e elegante, que tenta viver para lá dos números. Quando atua com Slimani, a ideia é que seja o elo de ligação entre a equipa e o golo; o intermediário entre o meio-campo e o homem mais adiantado; no fundo, que seja médio e atacante consoante as necessidades da equipa.

4 Montero atua na frente ofensiva com a visão, a técnica e a criatividade de um centro-campista, da mesma forma que, em zonas mais distantes da baliza, revela a habilidade frenética e o poder de síntese dos grandes avançados. Tem um tiro fortíssimo e preciso, sabe colocar-se na área e atacar a bola, mas nunca depurou o instinto dos especialistas do último toque: não vive só para o golo, porque sente prazer em participar no processo de construção e também se realiza com um bom passe de rotura, uma tabelinha ou qualquer adorno com sentido prático. No seu jogo amplo, desequilibrante e de múltiplas conexões, é uma serpente com mobilidade e movimentos inteligentes. À frente, é um predador com truques nos pés; atrás é um soldado de elite com armas subtis. Pode não ser o melhor ponta-de-lança do Sporting mas é, de todos os avançados-centro, e a uma distância considerável, o melhor futebolista.

Nuno belisca imagem de líder

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Nuno Espírito Santo tem conduzido com agressividade verbal inusitada o conflito com João Pereira, de tal forma que a desavença parece mais pessoal do que técnica: não é só o treinador a recusar um jogador mas um homem que não aceita trabalhar com outro só porque não gosta dele. Nuno tem todo o direito de não apreciar João Pereira e afastá-lo. Não é disso que se trata. Em causa estão, sim, os recados desabridos em praça pública, alguns até mal-educados, que ferem a imagem de treinador que, para lá de muitas outras qualidades, se tem revelado um líder da cabeça aos pés.

Brahimi e Gaitán no mesmo palco

Brahimi e Gaitán pertencem ao restrito grupo dos maiores artistas do futebol mundial, algo que só será reconhecido universalmente quando representarem outros clubes e pisarem outras salas. O Dragão vai vê-los no mesmo palco, preparando-se para usufruir da magia que caracteriza um e outro - em talento puro, e a par de Nani, dividem o título de jogadores mais geniais da Liga. O argelino e o argentino são tão elegantes, têm tanta nobreza e são tão raros que funcionam como distinção para o espetáculo. Até os adversários se sentem reconfortados com a honra de repartirem o relvado com eles.

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Kuca ascendeu a estrela da Liga

Oriundo do Desp. Chaves (antes jogou no Mirandela), Kuca não precisou de tempo de adaptação ao escalão máximo para se tornar a figura maior do Estoril de José Couceiro que, aos poucos, se aproxima dos lugares a que tem direito - já está em 10.º. Aos 25 anos, o cabo-verdiano tem qualidades tremendas para o futebol atual: resolve em espaços curtos e em campo aberto; tem talento, velocidade, coordenação motora, boa aproximação à baliza e remate certeiro. A consistência que tem revelado torna-o, desde já, uma estrela da Liga. Chegará ao fim da época?

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