Opinião
Paul Buck Fundador e CEO, EPIC Global Solutions (Membro da SIGA)

Prevenir em vez de remediar

Quando fiz a minha primeira aposta, não estava a pensar em probabilidades nem em integridade. Apostei num cavalo a 33 para 1 porque corria com as cores do meu clube de futebol, o Preston North End.

Ganhou com 12 corpos de vantagem, e aquele momento provocou em mim uma sensação que passaria 17 anos a perseguir. Quando finalmente parei, tinha movimentado 5,6 milhões de euros em 93 contas e perdido quase tudo o que realmente importava. Partilho isto não para despertar compaixão, mas porque é a prova mais clara que tenho de que os danos causados pelo jogo raramente se anunciam — escondem-se à vista de todos, no interior de uma carreira, de um casamento, de uma vida que, vista de fora, parece estar inteiramente sob controlo.

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A três dias do apito final, o Mundial entra no seu último acto — e o futebol tem uma oportunidade rara: não a de fiscalizar as apostas depois de o dano ocorrer, mas a de olhar honestamente para aquilo que este torneio nos mostrou sobre prevenção e para o que ainda falta construir antes do próximo.

O torneio gerou um volume extraordinário de apostas, grande parte delas legítima, outra nem tanto — o mercado negro é um risco crescente que nunca foi meramente hipotético.

A polícia francesa foi alertada para um aumento invulgar de apostas internacionais relacionadas com a possibilidade de Elye Wahi, jogador que participou no Mundial, ver um cartão no último jogo que disputou no campeonato nacional antes do torneio, o que desencadeou uma investigação a padrões suspeitos em torno da sua conduta. Casos como este são normalmente enquadrados apenas como um risco de manipulação de resultados. Mas levantam uma questão mais difícil: que formação recebeu esse jogador, e outros como ele, sobre a exposição ao jogo ou sobre integridade muito antes de qualquer investigação ter começado? Os Standards Universais da SIGA abordam, e bem, a ameaça à integridade. O interesse da EPIC situa-se na camada que lhe está subjacente — o bem-estar dos jogadores, das equipas técnicas e dos adeptos dentro de um ecossistema de apostas mais rápido, mais acessível e mais anónimo do que em qualquer outro momento da história.

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O jogo online alterou o risco. Está disponível a todas as horas do dia, não exige qualquer transação visível e pode intensificar-se em privado, sem que as pessoas mais próximas se apercebam. A minha própria dependência permaneceu invisível para a minha mulher e para os meus colegas de equipa durante quase uma década — uma característica estrutural da forma como hoje se acede ao jogo e a razão pela qual a prevenção tem de estar incorporada no sistema, e não ser acrescentada posteriormente.

Na EPIC Global Solutions, que fundei depois de cumprir uma pena de prisão relacionada com a minha dependência, o nosso modelo assenta num princípio: a prevenção tem de surgir antes do dano. Cerca de metade da nossa equipa tem experiência vivida de dependência do jogo, e trabalhamos nas áreas do desporto, jogo, serviços financeiros, forças armadas, justiça criminal e educação de jovens, em mais de 30 países.

A nossa parceria com a SIGA é importante para mim a nível pessoal, e não apenas profissional. Os Standards Universais da SIGA e o trabalho de prevenção da EPIC partilham uma convicção: proteger a integridade do desporto e proteger as suas pessoas são uma única missão, observada de dois ângulos diferentes. A SIGA traz um modelo de governação rigoroso para a integridade das competições; a EPIC traz a experiência da linha da frente sobre aquilo que os danos causados pelo jogo realmente são e sobre como intervir antes de um jogador, dirigente ou adepto entrar num território mais destrutivo. Em conjunto, estamos a desenvolver ferramentas, formação e campanhas que tratam a proteção dos atletas como uma questão central de integridade, e não como uma preocupação periférica de bem-estar.

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Os danos causados pelo jogo não são definidos pelo valor de uma aposta nem pelo saldo de uma conta bancária, mas pela relação entre o indivíduo e o comportamento. Um jovem jogador de academia que aposta pequenas quantias em segredo pode correr mais perigo do que um adepto abastado que aposta grandes somas de forma recreativa. Isto é verdade em todo o mercado regulado — e ainda mais nos mercados não regulados.

O Mundial foi visto por milhares de milhões de pessoas, muitas delas jovens, que formaram as suas primeiras perceções sobre as apostas ao longo de um mês de marketing associado ao torneio. Quando o troféu for erguido, federações, ligas e operadores terão a oportunidade de adotar um modelo melhor antes do próximo torneio: parcerias transparentes entre entidades de integridade e especialistas em prevenção de danos, formação dirigida aos jogadores antes de os problemas surgirem e uma conversa sobre o jogo que leve a prevenção tão a sério como a deteção.

O jogo existe há 3.000 anos e continuará a existir nos próximos 3.000. A resposta não passa por afastar as apostas do desporto, nem isso seria realista. Passa por reconhecer honestamente o risco e investir na prevenção com a mesma seriedade com que o desporto investe em medidas antidopagem ou de combate à manipulação de resultados. Todas as formas graves de perturbação de jogo com que me deparei, incluindo a minha, terminam num de quatro destinos: falência, rutura de relações, condenação criminal ou — nos piores casos — problemas graves de saúde mental. A prevenção é a única intervenção capaz de interromper esse percurso.

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Há quase 15 anos, fiz a minha última aposta. Tudo o que a EPIC faz, e tudo o que a nossa parceria com a SIGA está a construir, nasce do desejo de que menos pessoas percorram a distância que eu percorri antes de alguém intervir. Agora que este Mundial chega ao fim, deixa um indicador claro pelo qual poderemos medir o próximo: proteger a integridade do desporto tem de incluir a proteção de quem o pratica, de quem o apoia e de quem o vê. A prevenção não é uma nota de rodapé da integridade — é o seu alicerce.

Linha da Frente é um espaço semanal de responsabilidade da SIGA

Por Paul Buck
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