Sempre disse que não acreditava que Quique Flores cumprisse o segundo ano de contrato com o Benfica. A ausência de resultados significativos - agravada nos últimos tempos - acabaria por levar a maioria dos adeptos a "torcer o nariz" à permanência do técnico espanhol que, ao invés do habitual, parece estar cada vez mais longe de encontrar um onze base, um modelo de jogo, uma linha orientadora, um discurso motivador e coerente.
Mas, como sempre sucede, a última palavra teria (e terá) de pertencer a Luís Filipe Vieira e Rui Costa. E estes sempre se mantiveram, pelo menos publicamente, ao lado do treinador. "Estabilidade" foi o lema do presidente para, em diversos momentos, assegurar a continuidade de Quique na época 2009/10. Para mim, essa conversa serviu apenas para tentar passar estabilidade para o presente e nunca para o futuro. Vieira, melhor que ninguém, sabe que manter o espanhol será uma aposta de alto risco e, mais grave que isso, um convite para muitos associados passarem para as fileiras da oposição, seja ela encabeçada por A, B ou C, a pouco tempo das eleições do clube.
É verdade que, de entrada, os adeptos concederam um longo voto de confiança a Quique. Mas, naturalmente, a paciência tem limites. E não é preciso fazer uma sondagem com rigorosos métodos científicos para perceber que, de momento, a maioria dos benfiquistas quer o espanhol longe da Luz. Mas, agora, depois das suas últimas declarações, creio que também Quique está a tratar de facilitar a missão dos responsáveis, posicionando-se de forma a sair, sem dramas (como refere) da Luz. Sem dramas, mas manchando muito do capital de diplomata que cultivou durante meses.
É legítimo que Quique não tenha apreciado as críticas que Léo, desde o Brasil, lhe lançou, mas podia e devia ter evitado a polémica, nomeadamente chamar burro ao lateral esquerdo que sempre foi visto com bons olhos pela maioria dos adeptos. Gostar (ou não) de um jogador e utilizá-lo com titular, suplente ou pura e simplesmente não contar com ele são opções (embora discutíveis) que pertencem apenas ao líder da equipa técnica. Mas, ofender, publicamente, o profissionalismo de um atleta é diferente. A menos que se concretize as razões dessa animosidade. Foi Quique quem, sem razão aparente, disse que Léo tinha de ficar de fora uns jogos para aprender o que fazer quando chamado a competir. Por outras palavras, o técnico passou um verdadeiro atestado de incompetência a um jogador veterano, internacional pelo Brasil e que sempre foi considerado um modelo de entrega na Luz. Ao fazer isso, mais do que "empurrar" o futebolista para outras paragens, Quique deu o flanco para ouvir a resposta. E esta, mesmo tardando, chegou.
Os adeptos, até com medo de que algo do género possa suceder a Cardozo (outro mal-amado do espanhol por razões desconhecidas), já não têm dúvidas. E Quique também não as tem: há muito que percebeu que o futuro não será em Lisboa. A tal conversa com os dirigentes no final da temporada será apenas para selar os termos do divórcio.