1. O futebol também é cultura, porque a ele corresponde uma sensibilidade, um estilo e uma história. Mesmo vivendo num tempo de uniformização, há circunstâncias específicas que obrigam equipas, e as seleções nacionais de um modo ainda mais vincado, a jogar como o povo exige, razão pela qual o futebol também se parece com o lugar onde nascemos, crescemos e definimos valores que nos orientam para o resto dos dias. É incompreensível que, ao fim de quatro décadas a encantar o Mundo pela intenção ofensiva e sentido de espetáculo, orientada por esperança e aventura, a Holanda se renda ao medo e ao pragmatismo resultadista; que troque o adorno pelo realismo e devolva o jogo às cavernas de onde Michels, Cruyff e companhia o resgataram pela esplendorosa via do futebol total.
2. Neste enquadramento repressivo emergem três talentos sublimes: Sneijder (um peixe fora de água), Van Persie (a quem a bola chega cada vez menos) e Arjen Robben, o mais extraordinário jogador holandês desde a geração de Van Basten, Gullit e Rijkaard. Aos 30 anos, atravessa o melhor momento da carreira – o que tem feito no Brasil confere-lhe o estatuto um dos maiores génios holandeses de todos os tempos. Sendo rara a influência arrasadora a partir dos corredores, Robben resolve por habilidade, técnica, visão e entendimento das chaves coletivas do jogo; impõe-se pela eficácia do talento magistral e pela avaliação perfeita do que se passa à volta; por ações geniais mas também pelo domínio do que o futebol tem de xadrez. E até já derruba por insistência.
3. A obstinação, a resistência e a capacidade de sofrimento, que têm sido a sua imagem de marca no Mundial (arrasador na parte final do jogo com o México e no prolongamento frente à Costa Rica), provam que já lá vai o tempo em que era o homem de cristal, frágil, receoso, sensível à mais leve indisposição. Em 2004, José Mourinho levou-o para o Chelsea – chegaram os dois ao mesmo tempo. Sucederam-se as pequenas lesões, os toques ligeiros, as dores sem sentido para os médicos. Um dia, porque o departamento clínico lhe deu aval para fazê-lo, Mou perdeu as estribeiras e obrigou-o a treinar-se apesar das queixas. No dia seguinte, o pai dirigiu-se ao centro de estágio para falar com o treinador português. E acusou-o de bárbaro: “Se o meu filho diz que dói, é porque dói. Entendeu?”
4. Dez anos depois, Robben é o fiel depositário do sentimento popular, porque defende o estilo e a estética que identifica um país há quase meio século. Aliás, é incrível que a Holanda passe pelo Brasil’2014 abdicando do legado que a sustenta. Pode ser campeã do Mundo mas também pode sofrer dupla derrota: perder o título e a identidade. Seja como for, suscita ainda a paixão de muitos adeptos que, desde 1974, aguardam pela merecida coroação de quem tanto fez pelo futebol. Um apoio feito em nome da grandeza dos antepassados e das memórias que perduram da Laranja Mecânica inovadora e deslumbrante que se tornou património da humanidade. Não por esta equipa mesquinha, da qual se salvam Robben, Sneijder e Van Persie, únicos herdeiros legítimos dos heróis que nos encheram a alma.
Saberá Cillessen parar penáltis?
Tim Krul foi um terramoto no campo de batalha, onde os soldados, ao fim de duas horas de combate, iam gastar as últimas gotas de energia. Os costa-riquenhos estavam preparados para tudo menos para enfrentar um agitador com tiques amalucados e que tudo fez para condicionar a confiança dos adversários. O objetivo foi claro: quanto mais perturbados estiverem os atiradores maior será a probabilidade de verem afetada a pontaria. O guarda-redes holandês aproveitou o ascendente moral e venceu o despique. E Cillessen, o titular: não saberá ele parar penáltis?
Van Gaal optou pela demagogia
A diferença na luta entre guarda-redes e atirador é simples: um só tem a ganhar com o duelo enquanto o outro tem de superar o medo; um joga para ser herói, o outro só procura salvar a pele. Van Gaal mostrou uma terceira via, ao decidir trocar de guarda-redes para a grande decisão no Holanda-Costa Rica, poupando (mal) uma substituição durante as duas horas de um jogo que todos os intervenientes terminaram de rastos. Tim Krul defendeu dois remates (Ricardo defendeu três em 2006, com a Inglaterra...) mas a estrela da noite foi o treinador. Que mais parece ter inventado a pólvora.
Um visionário chamado Bento
“Aquele não quis ser campeão europeu”, disse-me passados uns dias. Aquele era Toni, treinador encarnado na altura. Explicou então o maior mito da baliza encarnada: “Pintava a minha cara de preto se em cinco remates não defendesse pelo menos um.” E a crítica a Silvino subia de tom ao salientar o facto de este não ter adivinhado sequer o lado de um dos remates. Perguntei: “Mas o que querias que o Toni fizesse?” Resposta na ponta da língua: “Pôr-me a defender os penáltis.” Meu querido Manel, ainda não parei de ouvir as tuas gargalhadas depois do que Van Gaal fez no Holanda-Costa Rica.