Já lá vai o tempo em que as equipas refletiam o sentir dos adeptos, porque coincidam no estilo, na estética e na identificação com a história. Hoje, os exércitos futebolísticos refletem apenas talento, profissionalismo e uma cumplicidade reduzida à linguagem universal do jogo, o que relativiza os vínculos emocionais. São soldados de elite, sim, mas menos comprometidos com a alma das causas que abraçam. Julen Lopetegui não desfez o sonho de ter êxito em Portugal com uma equipa da liga espanhola no exílio. RQ7 é o ídolo maior do FC Porto desde a glória europeia e mundial de 2002 a 2004. Transporta genuína paixão pelo clube que o acolheu de braços abertos, valorizou a sua magia e o tornou feliz. Harry Potter encontrou na família azul e branca o conforto para expressar o génio, na certeza de que, para ser igual a si próprio, precisa de sentir-se importante no meio e acarinhado pela plateia; que os companheiros o reconheçam, os adversários o temam e o treinador o entenda como peça fundamental da solução. Como símbolo máximo de um tempo, RQ7 tornou-se um caso mais institucional do que técnico.
JL pode ficar mais descansado mas alguém tem de dizer-lhe que enfraqueceu a equipa, ao resolver à bruta, com a conivência de cúpula do clube, um problema para o qual não está preparado. Como selecionador convocava quem queria, pelo que nunca foi surpreendido com jogadores de temperamento difícil – e no FC Porto, como nenhum outro em décadas, tem peso esmagador na construção do plantel. A birra de afastar RQ7 é de uma falta de grandeza tremenda e deixa o clube em posição delicada. Esperemos que um dia destes não se lembre de transferir o estádio do Dragão para Vigo, decretar as tapas como comida oficial do clube ou mudar o hino para o "Y Viva España".