_

Rui Patrício a caminho da lenda

Rui Patrício a caminho da lenda

1 - Amadeo Carrizo, hoje com 87 anos, um dos melhores guarda-redes argentinos de todos os tempos e símbolo máximo do River Plate, clube de que é presidente honorário, refletiu toda a vida sobre a função que o imortalizou. Quando lhe pedem opinião sobre determinado craque das balizas, a resposta trava sempre a euforia: “Um guarda-redes só se faz verdadeiramente depois de sofrer mil golos.” Exagera o génio que a Federação Internacional de História e Estatística do Futebol considerou o melhor sul-americano do século passado, mas percebe-se a mensagem que subentende a importância do tempo e da reação à adversidade. Rui Patrício não sofreu mil golos mas já cumpriu quase todas as etapas da formação. Talvez o velho Carrizo abrisse uma exceção para reconhecer o talento do número 1 de Portugal.

2 - Diz-se que o gesto de ir buscar a bola ao fundo da baliza dá caráter ao guarda-redes. Mostra de que matéria é feito e permite avaliar a resposta de cada um à derrota nesses duelos parciais com os potenciais agressores. Os guardiões de templos mais modestos, habituados a ação contínua, realizam-se com meia dúzia de acrobacias mesmo que sofram um, dois ou três golos. Rui Patrício, que rejeita extravagâncias e exibicionismos estéreis, tem o perfil ideal para defender as costas de uma potência, ao serviço da qual o segredo é ser pouco mas bom – isto apesar de, em 2012/13, ter experimentado a outra face da moeda. Desde que represente uma equipa de topo (como é este Sporting) e defenda uma Seleção de topo, tem um papel a cumprir no futebol português.

PUB

3 - Aos 26 anos, Rui Patrício voltou a viver numa sociedade estruturada, que não precisa dos seus milagres para ser feliz e ganhadora. O Sporting de Leonardo Jardim é uma comunidade tão perfeita que o guarda-redes reduziu largamente a sua intervenção, razão pela qual passa hoje mais despercebido e é menos aclamado do que noutras alturas da carreira. Agora que se aproxima da maturidade plena, já digeriu o veneno da juventude (desde logo o desejo de participação excessiva) que o levou a cometer erros técnicos e de análise que dificilmente repetirá no futuro. Porque o tempo é um eterno aliado do guarda-redes, depurou os valores adultos de sobriedade, frieza e simplicidade de processos. De resto, o capitão leonino é um bom exemplo de que uma equipa é hoje composta por onze jogadores e não por dez mais o guarda-redes.

4 - Rui Patrício tem sido o elemento mais negligenciado na soberba campanha do Sporting, em época na qual reencontrou a sorte que o destino lhe traçou como expoente de uma grande equipa. Embora ainda não tenha currículo para integrar a geração dos deuses (Azevedo, Carlos Gomes, Damas, Bento e Vítor Baía), retomou o caminho que fará dele uma lenda entre os maiores de sempre em Portugal. Concluído o parênteses, em forma de época maldita, como guarda-costas de um coletivo menor, Rui Patrício voltou em 2013/14 a ser um guardião de campeões: espectador com olho de protagonista; felino que sabe valorizar a paciência; ator que contempla mas não se distrai. Poucos como ele conciliam talento, segurança, equilíbrio, regularidade e liderança.

Rafael Martins é estrela da Liga

PUB

O V. Setúbal conseguiu encontrar um finalizador para o bom futebol que tem praticado

Aos 25 anos, Rafael Martins apresentou-se no Bonfim sem credenciais que permitissem prever a mais-valia em que se tornou. Com o tempo delimitou espaço na equipa até chegar ao ponto de ser referência da própria Liga: é o quarto melhor marcador do campeonato, com 12 golos numa equipa que tem 35 no total – está igual a Lima e a um apenas de Montero. Muitas vezes, o goleador precisa apenas de encontrar ambiente para se sentir bem e espaço para expressar todas as qualidades que possui. Este brasileiro está a ser uma enorme e agradável surpresa.

O compromisso de Oscar Cardozo

PUB

Há avançados que oscilam entre exageros: tudo ou nada; herói ou vilão; glória ou morte

Cardozo é um matador temível, assente em estética preguiçosa, o que só serve para desviar atenções de alguém cujo compromisso em campo é com o golo e não com o jogo. Quando lhe cheira a glória, transfigura-se: torna-se mais rápido, agressivo e contundente. Sem influência na construção, existe, quase em exclusivo, para dar nome ao momento mais aclamado do futebol. Se não marca perde capacidade de decisão, sente-se inútil e torna-se um problema para a equipa. Tacuara fez dois golos de penálti ao Rio Ave e, no fim, parecia que tinha crescido um palmo. Voltou a ser um perigo público.

Ghilas para lá do último toque

PUB

O golo faz sempre falta a um atacante. Mas faz muito mais falta a uns do que a outros

Ghilas pertence a um ramo peculiar de avançados: aos que, apetrechados com argumentos físicos para triunfarem como ponta-de-lança, têm técnica e alma de aventureiros, que se realizam para lá do último toque. Não está ali apenas para puxar a culatra atrás e matar a um só tiro; gosta de participar, de vir atrás e explorar os flancos. Não se dissocia do golo, mas o seu bem-estar não depende única e exclusivamente da pontaria. Frente à Académica, fez o primeiro golo pelo FC Porto na Liga. Não é motivo de festa, mas é mais um ponto a favor para quem vai substituir Jackson em Sevilha.

Deixe o seu comentário
PUB
PUB