1 - Não é um jogador limitado, porque todos os defeitos que se lhe reconhecem são virtudes de goleador. Nele coabita a humildade que lhe permite esconder limitações e realçar virtudes, cuja máxima se pode resumir à ideia de que, por não ser um virtuoso, vinga-se marcando golos. Na construção não se mete porque não tem argumentos técnicos para dialogar com os artistas; discutir não lhe convém porque se distrai; inventar não lhe interessa porque não tem imaginação para melhorar cada bola que lhe chega aos pés. Mas é tão ambicioso e acredita tanto nas suas potencialidades goleadoras que não teme reclamar, pela eficácia devidamente comprovada, um lugar no onze.
2 - Super Slim age como quem nunca perde de vista o encontro marcado com a bola, no lugar que o instinto indicou para fazer o que lhe parece mais fácil, que é o momento mais aclamado e difícil do futebol: o golo. José Águas, bicapitão europeu pelo Benfica, disse um dia sobre Matateu, figura maior do Belenenses, parceiro na Seleção nos anos 50 e seu jogador no Atlético na década de 60: “Era um fenómeno. Mas não entendia o futebol como atividade coletiva. Quando o treinei, antes de cada jogo, dava-lhe uma palmada nas costas, dizia-lhe que era o maior e para fazer o que achasse melhor”. Face a jogadores que se orientam por decisões irrefletidas e às vezes inexplicáveis, o treinador pode agir como José Águas sobre uma estrela em fim de carreira (Matateu caminhava para os 40 anos) ou como Leonardo Jardim relativamente a outro que, aos 25 anos, tem ainda muito para crescer.
3 - Slimani personifica o conceito de que a intuição é a velocidade de ponta da inteligência. Mas o argelino precisa ainda de acrescentar ao repentismo que o caracteriza, às decisões instantâneas que toma e aos movimentos nas ações de aproximação à baliza, capacidade para entender o jogo, as regras adjacentes às movimentações globais e os fundamentos lógicos de certas combinações. Por precipitação, faz ainda o que sente em momentos e zonas onde só tem a ganhar se fizer o que deve. É esse o papel fundamental que Leonardo Jardim terá na sua evolução porque, em níveis competitivos tão exigentes, é imperioso que um futebolista também saiba jogar de memória, conheça as bases da ideia do treinador e seja capaz de decidir em função dessa aprendizagem.
4 - Se Montero assenta no perfil elegante de quem mata com luvas brancas, Slimani é o predador insaciável que vai direito ao assunto, entra sem bater à porta e expressa o instinto assassino de peito descoberto e a um só golpe. É uma espécie de Jack o Estripador, que declara inimigos todos os adversários que o rodeiam e é implacável no modo como alimenta a veia goleadora que caracteriza o seu padrão criativo – no espaço aéreo, então, é um caso muito sério. A Constituição de Leonardo Jardim não contempla, como base programática, um ponta-de-lança tão estrito no espaço e nas soluções que apresenta, pelo que o risco de desequilíbrios estruturais se tem sobreposto à promessa de eficácia. Com o Sp. Braga, Slimani terá nova ocasião para mostrar que já não vive só de instinto e continua a aproximar-se daquilo que pode vir a ser: um ponta-de-lança da cabeça aos pés.
Markovic vai ter nível mundial
Com o V. Guimarães, Markovic desempenhou o papel de extraterrestre num filme de cowboys
O sérvio descobriu a inspiração que foi faltando a toda a equipa e pincelou o jogo com sucessivas obras-primas, a mais expressiva das quais o golo que fez a diferença e deixou a águia com cinco e sete pontos de avanço sobre Sporting e FC Porto, respetivamente. Mesmo sabendo que os campeões se constroem pela contribuição coletiva de todos os seus elementos, há jogos que só o talento individual consegue desbloquear. Markovic valeu três pontos. E mostrou que tem todas as ferramentas para ser uma referência mundial dentro de dois/três anos.
A principal culpa de Paulo Fonseca
Quando o insucesso é tão claro e marcante, a culpa não pode ser atribuída a um homem só
Paulo Fonseca não é responsável único pelo fracasso portista. O percurso em 2013/14 está cheio de falhas individuais que valeram golos e pontos, muita incompetência à frente e a única nota de melhoria residiu na chegada de Quaresma. Porém, o míster não pode fugir às responsabilidades. César Luis Menotti, um dos maiores pensadores do futebol moderno, afirmou em tempos: “Um treinador vê-se nos progressos dos seus jogadores. Se um futebolista tem sempre as mesmas virtudes e os mesmos defeitos, é porque não tem um bom professor”. Essa é a questão mais intrigante.
Uma história de nomes próprios
Nenhuma formação normal expressa qualidade tão elevada, durante tanto tempo
O Estoril de Marco Silva é uma equipa assente em ideias e conceitos claros. No Dragão orientou-se por plano de viagem que lhe permitiu antecipar todos os factos (bons e maus) que o jogo proporcionou e foi ultrapassando obstáculos até à vitória final. O trabalho tem sido tão perfeito que, a páginas tantas, o ciclo de sucesso se encheu de nomes próprios: Evandro é o melhor 10 do futebol português; Yohan Tavares está entre os melhores centrais; Vagner nos melhores guarda-redes; Gonçalo é candidato à Seleção; Carlitos é uma joia preciosa escondida no cofre-forte da Amoreira.