1 Todas as opções estéticas, táticas e técnicas já conheceram o êxito, a eficácia, a alegria e a glória na centenária e multifacetada história do futebol, sinal de que não há apenas uma forma de jogar bem e ser eficaz. Ter ou não ter a bola; trocá-la ou promover o ataque rápido; defender à zona ou homem a homem; jogar mais por dentro ou por fora; com mais ou menos pudor; o importante é que uma equipa aceite convictamente o projeto de jogo proposto pelo seu treinador, saiba interpretá-lo e não se engane nas decisões estruturais: se ataca não pode arrepender-se a meio da viagem; se joga de pé para pé não deve chutar para a frente; se aceita orientar-se por paixão e concentração está proibida de ser passiva e distante. José Mourinho venceu o 22.º título da carreira e parece que o Mundo só tem voz para lhe denegrir o mérito, sob acusação de pouca plasticidade da equipa que dirige.
2 Assente em vasto império de vitórias, títulos e inovação, falta associar-se a uma equipa eterna, para sempre recordada pela conquista de adeptos neutros e até hostis – uma equipa ao nível do Ajax do futebol total (com Michels e Kovacs); do Dream Team de Cruyff; do Milan de Sacchi; ou do Barcelona de Guardiola, que ajudou a derrubar quando foi campeão pelo Real Madrid, em 2011/12. Nada que belisque o mérito de um percurso notável, mais do que suficiente para responder a quem lhe critica, pontualmente, a valorização do resultado para lá dos limites razoáveis e a aposta com todas as fichas no pragmatismo de vencer a qualquer preço, beliscando o jogo como fonte de liberdade, aventura e criatividade.
3 O Chelsea campeão de 2014/15, que Wenger e Pellegrini desvalorizam sob acusação de ser chato, é a equipa da Premier League com mais vitórias e menos derrotas; que festejou o título a três jornadas do fim, assente no segundo melhor ataque e na melhor defesa do campeonato. JM apenas escolheu um caminho para ganhar e ser feliz. Em vez de parabéns pela extraordinária conquista e pela superioridade esmagadora de uma época inteira sobre a concorrência, tem sido alvo de acusações sem sentido, alicerçadas em argumentos ridículos. Uma réplica de tempos que já lá vão, nos quais, perante a evidência de um génio absoluto e revolucionário do jogo, foi avaliado, não como grande treinador mas segundo parâmetros absurdos e indignos de gente inteligente – que era arrogante, provocador, mal-educado, não sabia ganhar, tinha mau perder...
4 JM desenvolveu o futebol a partir de fatores que o enobrecem como jogo (avanço tremendo nas metodologias do treino, cuja dimensão só os seus pares sabem avaliar na plenitude); que o respeitam como espetáculo mediático (deu importância à imagem e depurou quase todas as técnicas de comunicação); que respeita os requisitos de indústria (faz movimentar milhões e apresenta resultados); que dão à equipa o valor da família, ao balneário a condição de lugar sagrado e ao compromisso com os adeptos a única forma de criar harmonia e gerar felicidade. Raras vezes o futebol conheceu figura tão esmagadora e persistente na glória (doze anos a ganhar), pelo domínio científico e empírico da função. Com tantos troféus conquistados, entre os quais oito títulos de campeão nacional e duas Champions, é o melhor treinador português de sempre. E candidato seguro a um dos mais extraordinários da história.
Genes de talento em Tiago Pinto
Mesmo sem atingir o nível de pai João, há momentos em que revela classe surpreendente
Tiago Pinto vive a época de afirmação como lateral-esquerdo de nível superior. Corrigiu debilidades no seu jogo defensivo e foi consolidando boa parte das principais virtudes, quase todas relacionadas com as ações de ataque e de relação com a bola. O jogo do Restelo constituiu uma boa súmula do ponto de situação: é um jogador cada vez mais sólido, com momentos em que revela genes de talento cuja origem todos conhecemos. Em Portugal, só Alex Sandro e Jefferson lhe estão acima.
William não é só velocidade
É raro ver um jogador tão perfeito e inteligente a utilizar a velocidade de deslocamento
Willian antecipa as intenções alheias, reage e chega primeiro aos lances; quando pega na bola é um relâmpago que ilumina o jogo, sempre com noção tática e talento para tomar as melhores decisões. Sendo habilidoso e tecnicista não se perde em adornos; de tão articulado e objetivo mantem a vertigem com a bola nos pés. No resto, revela sentido de equilíbrio quando a equipa não tem a bola e é concreto e eficaz quando recupera a iniciativa e ataca a baliza contrária. É uma das estrelas de Stamford Bridge, prova de que as plateias das grandes salas sabem escolher os seus heróis.
Marco, a Taça e a convicção
Parece que BdC só apostará em Marco Silva para 2015/16 se o Sporting conquistar a Taça
A opção faria sentido não fosse dar-se o caso de, nesta altura da vida em comum entre presidente e treinador, ser uma decisão que já devia estar tomada. Marco serve, porque fez bom trabalho e deu garantias para o futuro, ou não cumpriu os mínimos, falhou segundo outros parâmetros de avaliação e deve abandonar. O importante é a convicção, não a Taça. Se o Sporting ganhar no Jamor o presidente fica sem alternativa. E se decidir contra a consciência, BdC não estará a resolver um problema; estará sim a adiar a decisão de demitir o treinador à primeira oportunidade.