Vieira vira a agulha

Pois é. A tal conversa da estabilidade que Luís Filipe Vieira andou a apregoar por aí, tal como sempre defendi, era mesmo só para entreter. Mal o Benfica deixou de ter hipóteses de terminar a Liga num dos dois primeiros lugares (matematicamente só sucedeu este fim-de-semana, mas há muito que o assunto estava resolvido), o presidente das águias virou a agulha. Horas depois do empate com o Trofense (os encarnados somaram 1 ponto em 6 com um conjunto que cumpre, esta época, a sua primeira temporada na divisão principal, sofrendo 4 golos nas duas partidas), o responsável máximo do clube da Luz anunciou que vão existir mudanças. Quem diria?!

É verdade que Vieira não especificou as alterações que tem em mente, mas façamos um pequeno exercício para tentar decifrar o que, bem vistas as coisas, acaba por ser claro como a água. Vai o presidente bater com a porta? É óbvio que não! Já o vimos, vezes sem conta, a reclamar com todas as injustiças que ocorrem no desporto, em geral, e no futebol, em particular, mas daí até resolver abdicar... a distância é grande. Digamos que daqui até, talvez, Plutão!

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Segunda hipótese: estará Vieira a pensar em Rui Costa? Também não. Para além de isso ser pouco provável (o presidente não poupa, pelo menos publicamente, elogios ao director-desportivo), em período de pré-eleições - caso o líder fosse por aí - bastaria ao ex-futebolista associar-se a uma candidatura de oposição (ou avançar com uma própria) para Vieira, muito provavelmente, ter os dias contados na Luz. Há muita gente que reconhece o mérito do actual presidente em recuperar a imagem do clube junto das instituições financeiras, mas desportivamente o seu consulado tem sido muito fraquinho. E quantos sócios estarão do seu lado se, por hipótese, Rui Costa alinhar do lado contrário da barricada? Poucos. Muito poucos.

Terceira hipótese: serão os futebolistas os alvos da mensagem? Nem por sombras! Se fosse esse o caso, não era preciso o presidente fazer esta sentida declaração. Todos os anos, todas as equipas, independentemente de conquistarem títulos ou descerem de divisão, procedem a mudanças. Podem ser significativas ou meros ajustamentos, mas nunca o Benfica, nem nenhuma equipa de um escalão principal, teve o mesmo grupo de profissionais duas temporadas seguidas. Logo, esta possibilidade também não serve.

Acreditando que Vieira não deve estar muito preocupado em mudar o motorista do autocarro, os tratadores da relva, os técnicos de equipamentos (antigamente conhecidos como roupeiros) ou mesmo os membros da equipa médica (este ano, por comparação com anteriores, tiveram pouco trabalho), sou levado a pensar que quem está no ponto de mira é Quique Flores e mais os adjuntos. Os "seus" adjuntos, pois convém recordar que, para o espanhol, Diamantino e Chalana eram ilustres desconhecidos que, de vez a vez, apareciam equipados nos relvados do Seixal para, digo eu, fazer umas corridinhas, já que, para aquilo que foram contratados, desde o primeiro dia estiveram dispensados. 

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Moral da história: Vieira pode ter muitos defeitos, mas não anda a dormir. E por mais que pretenda ter um clube estável, sem grandes oscilações, não vai fazer finca pé contra a opinião quase unânime de associados, simpatizantes e, mais importante, companheiros dos orgãos sociais. Quique há muito que tinha o destino traçado (as suas últimas conferências de imprensa foram bem elucidativas). Pura e simplesmente era deselegante não fazer a sua defesa perante a opinião pública quando, matematicamente, ainda havia algo a disputar. Agora, após mais uma época que só não foi totalmente perdida porque, como diz o técnico espanhol, o Benfica ganhou a Taça da Liga, Vieira apressou-se a fazer... a sua própria defesa. Quem diria?!

PS - Independentemente do que ainda puder acontecer na parte cimeira da classificação (leia-se do segundo lugar para baixo), o interesse das últimas rondas da Liga resume-se à luta pela permanência, pois mesmo que o Benfica ainda derrape mais, irá sempre à mesma competição europeia. Olhando para a pauta, parece complicado que o histórico Belenenses se aguente na Liga Sagres. Mergulhado em problemas financeiros, o clube do Restelo ficará em situação bastante difícil se, efectivamente, cair no segundo escalão.

PS 1 - Terminou mais uma edição do Estoril Open. Foi a vigésima. E mais uma vez houve ténis de qualidade no Jamor. Só foi pena que os portugueses não tivessem conseguido um desempenho mais feliz. É evidente que não se pode exigir muito a atletas que, sem excepção, mediram forças com adversários mais cotados no "ranking". Mas, quem assistiu aos duelos, sabe que teria sido possível ver alguns triunfos. Faltou um pouco de sorte, de coragem, de talento. Mas, atenção, Frederico Gil já não é só uma agradável surpresa. O lisboeta tem mesmo ténis para, pelo menos, entrar no "top-50" mundial. Aguardemos... 

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