O que parecia a travagem no processo de construção de um futebolista de eleição foi, afinal, a etapa necessária para torná-lo ainda melhor. Agora, só precisa de manter o rumo para ser, em breve, uma estrela do futebol mundial.
1 É vulgar que as rotinas criem num futebolista a convicção de que já assimilou todos os princípios da tarefa e de que está apto a exercer só com os fundamentos já adquiridos. William Carvalho movimentava-se de olhos fechados pela ampla sala do centro do terreno quando, de repente, percebeu que lhe tinham mexido nas gavetas; que a roupa mudara de lugar e as prateleiras estavam desarrumadas. Marco Silva criou, desse modo, enorme desafio a um médio-centro cujo ponto de partida posicional se definia no momento defensivo. Podia faltar-lhe contundência nos duelos individuais e avaliar mal os instantes limite, em que era preciso fazer uma falta feia, dar um pontapé para a bancada ou estimular qualquer intervenção que alimentasse o trabalho sujo de que o futebol também é feito. No essencial, conhecia a cartilha de cor.
2 Desempenhando a mesma função, atua agora mais adiantado numa equipa que cultiva a posse como sinal de identidade. Se antes jogava de trás para a frente, agora vê e analisa o jogo na perspetiva inversa. Sendo verdade que as novas exigências se adaptam melhor ao futebolista que é, demorou a enquadrar-se. Porque sabe jogar, gosta de ter a bola e progredir com ela; porque tem no ADN dimensão criativa para ser útil em zonas mais adiantadas e participar nas ações que conduzem à baliza adversária, William deixou-se levar pelo entusiasmo. Sem dar por isso, descurou a articulação desse desejo com a tarefa primordial que é ser o polo de segurança e equilíbrio a partir do qual a equipa depura a ordem e expressa boa parte dos seus segredos posicionais e de funcionamento.
3 Dizem os especialistas que a retirada é a mais difícil de todas as manobras militares. Transferindo a dificuldade para o futebol, quando uma equipa recua e abdica da iniciativa, o mais importante para não se expor é apetrechar-se taticamente para não ficar à mercê do adversário. A complexidade do processo é imensa, porque a ação depende da organização que o exército for capaz de manter no momento em que perde a bola. Influenciado pela emoção, William achou que podia estar em mais do que um lugar ao mesmo tempo. Mais próximo da zona de definição, perdeu o senso comum: convicto de que podia provocar desequilíbrios ao adversário, chegou a criar o caos na sua própria equipa; seguro de que podia dar largas a devaneios artísticos acabou por desestabilizar o seu próprio coletivo.
4 O que parecia ser a travagem no processo de construção de um futebolista de eleição foi, afinal, a etapa necessária para torná-lo ainda melhor. A experiência, o sentido de orientação dado por Marco Silva e a capacidade para continuar a aprender nunca puseram em causa a construção sustentada de um grande jogador. William agregou ciência, depurou qualidades e multifacetou argumentos, de tal forma que está a tornar-se um jogador melhor, ainda mais completo e muito mais valioso para o mercado. Aos 22 anos, tem sabido gerir o impacto das exigências inerentes ao estatuto de figura maior e interpretar com inteligência cada passo de uma carreira na qual quase tudo lhe sucedeu num curto lapso temporal - Sporting, Seleção e interesse de algumas das maiores potências europeias. Já pôs tudo no lugar. Agora, só precisa de manter o rumo para, em breve, ser uma estrela do futebol mundial.
A obra-prima de Quaresma
Na goleada do FC Porto ao P. Ferreira, a maior figura foi um dos heróis azuis e brancos
Quaresma foi um espetáculo à parte com o P. Ferreira. Jogadores como ele não precisam de mostrar todos os dias o talento que têm, porque o passado mais ou menos recente dá lustro a ilusionismos de dimensão eterna. Mas não deixa de ser reconfortante um génio como RQ7 recordar-nos a extensão do seu talento deslumbrante e raro que tem o condão de nos fazer gostar cada vez mais de futebol. A trivela é marca registada. Logo, aquele golo a Defendi é uma obra-prima com assinatura reconhecida.
Maxi e Benfica vão entender-se
Dele se diz que é um jogador à Benfica, abstração que já só caracteriza águias antigas
Maxi Pereira continua em grande e já há quem tenha encontrado o motivo para tanta e tão boa evidência: está a negociar a renovação do contrato. Indelicadezas à parte, o uruguaio recuperou a luz que ilumina a paixão dos adeptos, assente no estilo vigoroso, nas sucessivas viagens de ida e volta junto à linha lateral, na intransigência com que se bate e defende a camisola. Maxi é um jogador caro, está com 30 anos, tornou-se intermitente e, sem estes meses de esplendor, a renovação seria muito discutida. Depois do que fez com o Boavista, ele e o clube estão condenados a entender-se.
Domar Zequinha era impossível?
Joaquim Meirim dizia que os jogadores treinam-se por inteiro e não só do pescoço para baixo
Zequinha tem qualidades tremendas para um avançado: físico exuberante, agilidade, técnica, coordenação motora, jogo aéreo, remate, instinto, oportunismo, visão… Em jovem foi um grande projeto (está com 28 anos), formado no V. Setúbal, contratado pelo FC Porto e internacional jovem por Portugal. É criminoso não ter cumprido as promessas feitas no passado. Domá-lo totalmente era impossível? Se calhar era. Mas podia, ao menos, seguindo a ideia de mestre Meirim, ter ouvido os poucos (um ou dois) que se esforçaram por treiná-lo da cabeça aos pés.