Convidados
Ricardo Silveirinha Clube Romântico de Futebol

Futebol bemol

Aos 9 anos, comecei a aprender piano na Escola de Música Acácio Teixeira, em Abrantes. O Mestre Teixeira, orgulhoso e competentíssimo pedagogo, abria com a mão direita o metrónomo e dizia: «senhor Ricardo, pode começar» e eu avançava sobre o solfejo, repetindo e errando e repetindo e errando notas a fio, colhendo teclas pretas nos soluços das damas brancas, os dedos todos aos rodopios, como se tivessem vida. Tocava sem sentido, a mão esquerda dedilhando mindinho, central e polegar; a direita traçando fortes pancadas com o indicador e o anelar. Aos espaços, bemóis. Ninguém entendia nada daquilo.

A capa do livro "Piano Mágico: método com lindas canções" tinha uma menina nua sentada em cima das teclas, com uma flor amarela na mão. Só mais tarde vim a questionar-me sobre aquela imagem, sobretudo depois de ler sobre o peculiar autor Eurico A. Cebolo e suas diatribes loucas pela literatura familiar e religiosa com títulos de grande monta como o preocupante "O falo perdido", o naturalíssimo "Incesto sem pecado", o fraternal "Casei com a minha irmã", o sugestivo "A filha do padre", o contraditório "A prostituta virgem", o sherlockiano "Matavam as freiras grávidas" ou o extraordinariamente necrófilo "O violador das mortas". Uma obra coerente e, digamos, homogénea que foi passando pelo crivo do cancelamento porque, enfim, eram os anos oitenta e o país prosperava a grande velocidade.

PUB

O professor Acácio Teixeira, de rosáceas bochechas e nervosismos mil, olhava-me os dedos como crimes enquanto o piano, não gemendo mas sofrendo por dentro, pedia algum tipo de absolvição. Eu atacava as teclas com a subtileza de um orangotango aos saltos sobre um louceiro de bibelôs e as notas estatelavam-se no chão, semi-partidas. Não era que o Mestre sofresse de ausência de sapiência ou eu próprio soçobrasse ao ensino de Acácio, preparando esse concerto épico no qual deslumbrei o público (ou só o meu pai, vá) com uma brilhante interpretação de "O violão do Zé Manel"; era só que a infância de província, naqueles tempos idos e vindos, tinha uma importância solar tal que passar uma hora a aprender solfejos, metrónomos e pontos escritos num papel era morrer em angústia.

Dei um mês de sofrimentos - a Acácio, mas sobretudo a mim - e depois segui a minha existência como se não continuássemos ainda sendo aluno e aprendiz. Deve ter havido uma hora, um segundo, dois ou três minutos, algum local no tempo em que eu percebi que aquilo me prendia ao fundo do mar e me limitava os dias. Ninguém sabe quando foi, mas houve uma hora, houve um minuto, que me contou tudo o que eu precisava saber: nunca na vida eu chegaria a pianista de renome. Nem sequer a organista nas festas populares. Nem uma única familiar actuação na consoada com o piano colorido de brincar. Nem uma nota sequer.

E então saía de casa pronto a não ir ter com o Acácio, embora Acácio me esperasse. Da minha porta à escola de Acácio eram meros 400 metros, viagem tranquila sem motivos de preocupação, não fosse existir no cimo da rua um campo de futebol onde invariavelmente jogavam amigos, saltavam bolas, ouvia-se o som de sapatilhas ou chuteiras contra o cimento, laranjas caíam sobre as bancadas, gritos ecoavam gritando ou golo ou os remates que saíam sobre o golo e levantavam outras vozes de indignação.

PUB

Comecei a ir de calções e umas adidas samba para as aulas clássicas do Professor Acácio, que era a minha forma de demonstrar que a aprendizagem do piano deve ser transversal a todos os estilos musicais e sempre ausente de preconceitos e, num assomo estranho de acasos, acabava a entrar no campo de futebol.

Sentava-me na bancada ainda com uma consciência de teclas brancas e pretas mas a olhar a bola que, de frente para trás, indo para os lados, subindo aos céus ou tabelando no cimento, me chamava com todos os nomes que as bolas, fabulosas no seu brilho de novas ou fustigadas numa escuridão de cansaços, nos chamam. O esférico saltitava e eu via a sinfonia acontecer: bemóis na recepção, semi-colcheias no passe, notas longas e graves quando ela atacava as redes que abanavam e abanava o mundo. O meu mundo. O mundo todo. Só 10 minutos. "Só 10 minutos com a redonda nos pés e depois vou ter com o Mestre Teixeira". Das bancadas, as folhas do caderno "Piano Mágico: método com lindas canções" gargalhavam irónicas ao vento.

Mas a minha equipa ganhava, o bota-fora nunca mais acabava, as notas só agora estavam a começar, havia mais um jogo e depois outro, no fim aquele passe que acabou na cabeça de um velho amigo e depois dentro da baliza. Eu talvez pedisse, num dentro de mim que era um fora de mim, que aquela bola não tivesse entrado e eu fosse finalmente fintar teclas brancas, confundindo a música com bemóis a meio do jogo, mas o que fazer quando consecutivamente se ganha e a noite já entrou, a aula já acabou, o jantar já esperou, a casa já anoiteceu, o Pai já chamou, a mãe já enlouqueceu, a lua já apareceu?

PUB

Suado, camisola do Valdo nas costas, calções aos desvarios, as sapatilhas rotas na esquerda que arrasta o remate, finalmente chegava a casa. De cara enfiada no esparregado, sorria a pensar na sinfonia n°10 de Diego Armando Maradona.

Por Ricardo Silveirinha
Deixe o seu comentário
PUB
PUB