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Ontem à saída do Estádio da Luz, ladeado por um mar das conversas cruzadas de adeptos naturalmente desiludidos, existiu um elemento praticamente unânime em todas elas: a falta de "garra" da equipa, traduzida numa ausência de vontade em vencer o jogo.
E se as opiniões em relação aos exemplos dessa falta de "garra" variavam, a ideia do tribunal da Luz foi clara: O Benfica não teve vontade e empenho suficientes para vencer o jogo.
Podemos naturalmente falar do árbitro (e com razões evidentes) ou de alguma falta de sorte, mas isso seria redutor. Ao Benfica importa olhar para a floresta, ao invés somente para a árvore. Só assim terá uma perspetiva geral do que está a suceder.
Pese embora as opiniões dos adeptos que ouvi apontarem vários lances durante a partida demonstrativos dessa falta de "querer", em meu entender o momento paradigmático e mais marcante da partida foi precisamente com o jogo parado.
Corria o minuto 71 do jogo e Veríssimo decidiu pelas saídas de Paulo Bernardo e Gilberto. Esse momento, a saída de campo de Gilberto, ficará etiquetada como "não acredito no que estou a ver".
Como é possível que perante a situação de jogo, Gilberto tenha saído do terreno a andar lentamente?! E tão mais inacreditável foi o facto de na estrutura da equipa (treinador ou adjuntos), Luisão ou Rui Pedro Brás, ninguém lhe dar um berro "daqueles" para que saísse rapidamente?! Ou até dentro do campo, os outros jogadores nada dizerem para que saísse a correr?!
Confesso que esse momento para mim é inexplicável e revelador de uma falta de atitude colectiva em torno da devoção ao Clube. Senti naquele momento que a "tal" Mística do Benfica estava (está) em perigo ou em vias de extinção.
Ressalvo que nada me move concretamente contra o jogador (que até costuma ser bastante abnegado nas suas exibições), mas toda a situação parece traduzir um desinteresse generalizado no foco de vencer, como se essa fosse uma situação "normal". Como se a Mística fosse uma coisa do passado desconhecida da equipa.
Contudo, este episódio nada tem de "normal". Pelo contrário, considero-o preocupante e um sinal claro de que é necessário um aumento urgente da exigência e cobrança à equipa e estrutura circundante. Com actos e atitudes concretas e não apenas com palavras de circunstância.
Por tudo isto, foi com enorme surpresa que ouvi Nélson Veríssimo após o jogo afirmar que "a equipa foi de um entrega total", reforçando mais tarde que "não queria deixar de sublinhar a entrega que os jogadores tiveram".
Nélson é um homem da casa e como Benfiquista sabe que isso não é verdade. Saberá perfeitamente que a equipa não teve essa entrega toda e que deveria ter feito mais. E se é ele o treinador, é ele quem - em primeira mão - tem, desde logo, de exigir mais aos jogadores.
Não é altura de pensar em ganhar balneários, mas sim de vencer jogos. Com todo o empenho e com a máxima determinação de quem é o líder. E na equipa, quem não tiver suficientemente essa vontade, então não serve actualmente para jogar no Benfica, por melhor que seja (ou pense ser).
Foi esse o motivo de os Benfiquistas brindarem a equipa com um coro de assobios. Quem sente e entende o Benfica sabe que não teve a ver com o resultado, mas sim com uma exibição em que faltou paixão e vontade "férrea" para vencer. É esse respeito que os adeptos exigem a quem os representa.
E se alguém não percebe os assobios ou descontentamento dos adeptos, é então necessário explicar que os Benfiquistas até aceitam desaires, mas não toleram que a equipa não dê o máximo, em todos os momentos, para o Benfica vencer.
Claro que a equipa queria vencer – todos queremos vencer, isso é um lugar-comum – mas simplesmente não fez o suficiente para o assegurar. Parece que não existe a percepção clara do privilégio que têm e da humildade necessária para atingir esse objectivo.
A conversa ida de que estamos (ou estávamos) 10 anos à frente dos nossos rivais (ou melhor, adversários como alguém me realçou esta semana) é sintomático de um aburguesamento generalizado do Clube que se sente a vários níveis. Uma falta de humildade e empenho total que se instalaram que não são condizentes com a nossa história.
Esse aburguesamento generalizado contagiou (também) a equipa de futebol do Benfica. A equipa é macia, tem pouca garra e não transmite aos benfiquistas dentro de campo a mesma vontade em vencer que os adeptos têm nas bancadas e que sempre foi apanágio das equipas do Benfica. Em suma, falta à equipa uma mentalidade de vitória.
É por isso que a mística e cultura de Benfica têm de regressar urgentemente ao Clube. É chegado o momento de vestir o fato de trabalho e largar o fato de gala, pois a festa já passou e o tempo é de arregaçar mangas e deitar mãos à obra. E parece que há pessoas que ainda não se deram conta dessa realidade e das mudanças e exigências que isso implica. Dentro e fora de campo…
Por Gustavo Silva