Gustavo Silva
Gustavo Silva Advogado, sócio 19.799 do Benfica

O barco Benfica

Num fim de semana onde vergonhosamente até o termo "ter uma equipa à prova de bala" passou a ter novo sentido no Estádio do Dragão, era expectável que o folhetim noticioso se virasse rapidamente para os lados da Luz, afastando assim o foco da gravidade daquilo a que se assistiu, conforme veio a suceder.

Infelizmente para a grande maioria da nação benfiquista já não causa espanto as notícias de suspeições ou más práticas envolvendo o Clube, apesar dessas notícias continuarem a criar um incómodo e mágoa em quem aprendeu a ver o Clube enquanto referência ética e de comportamento social e institucional.

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Enquanto sócio e adepto, penso ser essencial que tudo seja devidamente esclarecido e que sejam apuradas responsabilidades e consequências, doa a quem doer. O Benfica, e também o país, precisam que tudo seja investigado e devidamente clarificado. Porque nada ou ninguém pode estar acima da lei.

Dito isto, sendo esta a minha convicção e exigência, tanto pessoal como profissional, registo no entanto que olhando para as informações vindas a púbico, referentes aos "processos" que envolverão o Benfica (ou alguns dos seus dirigentes), constata-se que abundam evidentes raciocínios falaciosos e tendenciosos na análise de alguns supostos factos, com teorias que carecem claramente de consistência e não passariam sequer a um contraditório mais rigoroso de uma simples mesa de café.

E afirmo-o não por fervor clubista, mas tendo por base o privilégio da minha experiência profissional anterior e presente, lamentando que a informação seja, não raras vezes, deturpada e "lançada" de forma parcial e dessa forma provavelmente enganadora para quem a possa receber sem tanto discernimento.

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Neste sentido, felizmente para a democracia (logo para todos) que o rigor da Justiça e dos Tribunais é bem mais elevado que o de grande parte dos opinadores e boateiros quase profissionais, não sendo por isso de estranhar que muitas dessas suspeitas não passem nunca disso mesmo.

Não obstante, creio que o tamanho das ondas de choque de algumas notícias visando o Benfica tem um impacto muitíssimo superior também devido ao silêncio institucional quase total do Clube. É difícil entender a estratégia comunicacional do Benfica (presumindo existir), escudando-se num contundente silêncio apenas interrompido amiúde por comunicados técnico-jurídicos de advogados externos que abordam (naturalmente) somente a temática jurídica de determinada questão/processo.

No entanto, pouco do que envolve o Benfica poderá ser analisado apenas de forma unidimensional. E se importarão alguns esclarecimentos jurídico-processuais, importará ainda mais para os benfiquistas uma comunicação simples e clara perante suspeições ou boatos. Porque o Benfica tem esta exigência ética, de imagem e de sentimento que não se compadece apenas com "questões técnico jurídicas".

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Posto isto, com sentido de exigência, olho para toda esta situação envolvendo o Clube e as questões "judiciais" e as ondas de choque causadas; e concebo o Benfica como um grande barco, um enorme navio que quando afinado e em velocidade de cruzeiro, navega melhor que os demais.

Contudo, o barco Benfica tem apresentado várias frinchas, imperfeições (de tamanho ainda não determinado) e má construção aqui e ali, o que tem condicionado esse desempenho que já provou ser capaz e para o qual foi concebido e criado.

Perante isso, interessará certamente a vários terceiros ir desgastando esse navio, para que a estrutura do mesmo ceda e possa meter água. Penso que o grande objectivo de muitos os que visam o Benfica é exatamente esse: que o Benfica meta água.

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Por isso, é essencial que o recente novo comandante do barco (Rui Costa) olhe para a embarcação (estrutura) e veja onde estão as frinchas, as imperfeições e os componentes que estão obsoletos e a necessitar de substituição.

Precisa igualmente de segurar o leme com firmeza e não permitir que existam desvios de rumo, pois a grandeza histórica e de criação do barco "Benfica" não permite atalhos ou águas rasas, por mais tentadoras e produtivas que possam aparentar. Este navio segue os limites definidos e é aí que deve atingir velocidade cruzeiro e dar azo ao seu potencial único.

É evidente para todos a necessidade desta intervenção, de recuperar o barco e a sua estrutura, substituindo componentes por outros mais modernos, mais capazes e sem fissuras de antigas viagens ou mares revoltos ou com alguma podridão que possa advir do desgaste acumulado ou até de defeito de fabrico.

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Bem sabemos que a renovação não poderá ser efetuada totalmente de uma vez, pois é um navio em andamento, mas importa que o seja de forma célere e clara, para afastar receios e outras intenções menos nobres, assim como para descansar quem se preocupa com o Benfica.

Perante tantas e fortes vagas, é essencial que o barco Benfica se renove e demonstre que se não é à prova de bala, é (ou virá a ser brevemente) pelo menos à prova de água.

Importa então que o comandante tenha a perspicácia e capacidade de entender a necessidade premente desta renovação; caso contrário, poderá ficar na história como aquele que encalhou ou afundou o maior dos barcos nacionais.

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Por Gustavo Silva
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