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Pelé marcou 1283 gols.
Se disseres outra coisa, no Brasil, vais ter de explicar.
Cristiano Ronaldo já fez 901, todos em partidas oficiais de campeonatos ou taças.
Pelé, não! Noves fora os 516 anotados em amigáveis, sobram 767.
Sou brasileiro, filho de portugueses, mas brasileiro.
Também sou católico e jamais entraria numa igreja a dizer que os santos não são santos.
Nem se fosse judeu ou muçulmano ou evangélico, nunca ousaria desdizer o milagre de frente para o altar.
Pelé é Pelé e, com o perdão da redundância, sempre o será.
Ser Rei é viver 83 anos e passar 66 deles ouvindo dizer que outros foram melhores...
Eusébio foi melhor em 1966, Di Stéfano mais veloz, Cruyff mais cerebral, Maradona mais carismático, Cristiano Ronaldo fez mais gols em partidas oficiais.
E a comparação, há 70 anos, sempre é com Pelé.
Isto é ser Rei!
Tudo isto dito, vale ressaltar o feito de Cristiano Ronaldo. Não precisamos chamá-lo de Rei ou Imperador ou Presidente, porque Cristiano Ronaldo já tem sua Majestade.
Seus 901 gols já anotados credenciam-no a maior atleta do século 21 – se é que não se pode compará-lo a Pelé, fora da Igreja.
Há explicações para nós, os brasileiros, contabilizarmos os 1283 gols de Pelé, o milésimo anotado em 19 de novembro de 1969, num jogo de Campeonato Nacional contra o Vasco, de pênalti, no Maracanã.
O maior número de gols do Rei em um ano... Foram 110 em 74 partidas, em 1961. Dos 74 jogos, 37 foram amigáveis, muitos em torneios na África ou Europa, que representavam os ganhos económicos do Santos, para manter sua equipa remunerada.
Era assim o futebol brasileiro daquela época. Se eram marcadas as partidas amigáveis, havia dinheiro. Se não estavam a agendá-las, não tinha.
Chamava-se de profissionalismo, o Brasil foi tricampeão mundial nesta situação e as estatísticas iam a se computar a cada súmula publicada, fosse Taça Brasil, fosse numa viagem à República Dominicana.
Cada época e cada lugar tem seu jeito de ser. Nós, aqui do outro lado do Atlântico, já compreendemos há décadas que as contas podiam ser diferentes, tanto que as refizemos para compreender que Pelé só teria 767 golos sem contabilizar os amigáveis.
Mas essas partidas é que dava o dinheiro e as contas.
Cristiano Ronaldo está perto de ser Pelé.
Ou de ser mais do que Pelé, com seus 901 gols em partidas de Campeonatos de Portugal, Inglaterra, em Espanha, de Champions League, Arábia Saudita.
Palmas para Cristiano.
Só não peça a um brasileiro que tire Pelé de seu altar. Isto, não!
Por Paulo Vinícius Coelho