_
António Oliveira é o quarto técnico português da história do Corinthians. Estreou-se contra a Portuguesa e venceu por 2 x 0. Ora, justo contra o time de sua colônia, ainda tão grande neste país que Cabral descobriu a ponto de este que vos escreve chamar-se Coelho...
Meu avô, Alexandrino, era adepto da Portuguesa e do Belenenses. De modo que parecia ser sempre adepto de não vencer nunca, porque a Portuguesa só venceu o Campeonato Paulista e, pela última vez, em 1973.
Um dia, perguntei: "Vô, se jogarem Portuguesa x Belenenses, tu queres que vença quem?" Ele respondeu: "O Belenenses, claro!" De modo que entendi, naquele dia, que a Portuguesa é o segundo clube de todos os adeptos. Até mesmo dos adeptos da Portuguesa.
Quando a Lusa inaugurou seu estádio, contra o Benfica, em 1972, houve brigas nas bancadas entre seus adeptos e os benfiquistas.
Claro, porque havia sportinguistas, portistas e meu avô, entre os lusos.
A estreia de António Oliveira, filho de Toni, amigo de Jesualdo Ferreira, de quem foi adjunto no Santos, em 2020, e demitido de forma injusta, lembrou-me meu avô, por razões evidentes. Também porque meu avô Alexandrino era do contra. Como seus filhos eram adeptos do Santos, meu pai, e do Palmeiras, meu tio, dava-se a dizer-se adepto do Corinthians.
Só para ser contra todos.
Há outro motivo para ser adepto do Belenenses, numa família de sportinguistas e benfiquistas, como meus tios-avós Jorge, Manoel e Adriano? Mas meu avô insistia em dizer que o Belenenses era o maior. Carregava um emblema de seu clube na parte da frente de seu automóvel, um Chevette 1978, que carregou quase até a morte, em 2005.
Desde 2019, o Flamengo já teve três portugueses em seu comando, Jorge Jesus, Paulo Sousa e Vítor Pereira. Mais Jesualdo no Santos, Vítor Pereira no Corinthians, Pepa no Cruzeiro, Abel no Palmeiras, sem contar Armando Evangelista no Goiás, Pedro
Caixinha, no Bragantino. Só nos grandes, são oito.
António representa a esperança para o Corinthians, segunda maior torcida do Brasil, ameaçada de rebaixamento no estadual, que já perdeu importância, mas é suprema humilhação pensar no descenso. Como o Belenenses, de meu avô, a jogar o distrital, mas por razões diversas das quebras de contrato e discussões das SADs.
António começou bem, a honrar seu pai, Toni, que por aqui no Brasil insistem em pronunciar Tôni.
Quem sabe António nos ensine também a ler como está escrito. Assim como os portugueses nos ensinam a reentender o futebol.
Por Paulo Vinícius Coelho