Cronistas
Nuno Santos

As instituições a funcionar

O regime democrático português caminha para o meio século, mas, nalguns casos, parece que nasceu há menos tempo. Muito menos. O que falta em maturidade sobra em desfaçatez. Há sempre um clima de desconfiança instalado fruto de um padrão de comportamento onde o compadrio é uma forma de vida e não se trata de uma questão geracional. Infelizmente encontramos muitas pessoas ditas "novas" que acham que é através do favor, do pedido, do contacto privilegiado, da "cunha" que chegam onde querem.

Esta forma de estar é a que, por exemplo, condiciona e leva ao absurdo uma discussão como a que houve recentemente na sociedade portuguesa sobre a escolha do Procurador Geral da República. Ora, independentemente das legítimas posições políticas – e até do jogo partidário - o que estava em causa era a peregrina ideia que apenas uma pessoa poderia garantir o normal funcionamento de uma instituição tão relevante para a comunidade como é a Procuradoria Geral da República.

PUB

O futebol não está fora desta linha de análise. Pelo contrário. Convencionou-se – e muitos gostam de usar a expressão mesmo que não façam ideia do que estão a dizer – que é um estado dentro do estado, com regras próprias, um código distinto e pouco recomendável. Não, o futebol não será uma escola de virtudes, mas tem instituições e o que é normal é que estas funcionem no absoluto respeito pelas partes. Veja-se o episódio recente da interdição dos Estádios do Benfica e do Braga. O que está a acontecer, da decisão do Conselho de Disciplina ao recurso para o TAD é o normal funcionamento das instituições. E a posição dos clubes no espaço publico, mesmo quando lhe descortinamos um tom demagógico, é normal e absolutamente legítima. O resto é apenas ruído.

Sobre o ruído é quase terapêutico ler a imprensa espanhola ou seguir os programas de televisão do país vizinho por estes dias. A sensação é de deja vu. Esgrimem se argumentos sobre a eficácia do vídeo árbitro, o que trouxe de facto ao jogo, se a verdade desportiva está, enfim, salvaguardada ou, se pelo contrário, os erros aumentaram exponencialmente. Como qualquer discussão a quente há muitos argumentos que não têm um pingo de objetividade ou sustentação, além de outros que são apenas caixas de ressonância dos clubes.

Olhar para o que se passa em Espanha faz, de facto, lembrar o que sucedeu em Portugal há um ano.

PUB

Ora, no início da segunda época o que temos no nosso futebol é um sistema a caminho da maturidade, que defende a verdade desportiva e sem o qual o futebol já não pode passar. O que esperam os ingleses, por exemplo, para introduzir o VAR nas grandes competições? Ou a UEFA para lançar o sistema na Liga dos Campeões?

BRAGA A CRESCER EM TODAS AS FRENTES

A vitória desta semana do Braga sobre o Sporting não caiu do céu e é o resultado do muito bom trabalho que o clube faz há anos com a sua principal equipa de futebol. Há trabalho, há ambição e tem havido bons negócios o que posiciona o Braga como um clube saudável o que não é um detalhe. A realidade do futebol, no entanto, não se resume – e esse é o dado mais relevante à equipa principal. O Braga que foi um dos grandes municiadores da Seleção campeã da Europa, está nos primeiros lugares da recém-criada Liga Revelação, lidera nos Sub-19, nos Sub-17 e nos Sub-15. Tem também presença (e títulos) no futebol feminino. Nas competições jovens ganhar não será o mais importante e a época está a começar, mas a liderança significa qualidade das equipas e do trabalho que está a ser feito. Seja em vendas futuras, seja na capacidade de alimentar o plantel principal, o percurso do Braga merece registo.

PUB

LUISÃO - O aplauso geral, unânime mesmo, que se escuta e lê sobre a figura de Luisão é da mais elementar justiça. O brasileiro é um desses jogadores que parecem de um outro tempo, em que o futebol era outra diferente e a camisola tinha mesmo importância. O futebol não é hoje pior, em muitos casos é com certeza melhor, mas a mercantilização acabou com a ideia de amor ao clube que Luisão em Portugal, e no Benfica, simbolizou melhor do que ninguém nestes 15 anos.

JOÃO MOUTINHO - Aos 32 anos João Moutinho, jogador com mais de 100 jogos na principal Seleção portuguesa, campeão da Europa, campeão em França e em Portugal, está a mostrar se perante a exigente opinião pública (e publicada) de Inglaterra. Para quem o conhece não há surpresa. A influência de Moutinho no jogo e a dinâmica que introduz é idêntica ao que sempre fez, mas em Inglaterra pergunta se onde andava este pequeno jogador e porque não chegou mais cedo ao mais competitivo campeonato europeu.

Por Nuno Santos
Deixe o seu comentário
PUB
PUB