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A Académica de Coimbra é um daqueles clubes que, na memória coletiva do desporto português, continua associada aos grandes palcos, às noites europeias, a idas ao Jamor e a uma identidade única que cruza desporto, cultura e cidade. A realidade competitiva mais recente, porém, tem sido bem diferente.
Longe das grandes competições há vários anos, a Briosa disputa esta época a Liga 3. E é precisamente aí que surge o dado mais revelador do momento atual do futebol português: apesar de estar no terceiro escalão, a Académica comporta-se nas bancadas como um clube de patamar superior.
Os números não deixam margem para interpretações românticas. Na época em curso da Liga 3, a Académica tem a maior média de assistências da competição em jogos em casa, com mais de 5.000 espectadores por jogo. Mais impressionante ainda é o comportamento fora de casa: a Briosa arrasta, em média, mais de 1.500 espectadores visitantes por jogo, um valor absolutamente fora da escala habitual do terceiro escalão português.
Para se ter uma ideia clara do fenómeno, alguns jogos da Académica disputados em Coimbra ultrapassaram largamente os 10.000 espectadores.
Isto não é um acaso estatístico nem um efeito passageiro de uma boa fase desportiva. É a demonstração prática de que a relevância de um clube não desaparece quando cai de divisão. O que desaparece, muitas vezes, é a atenção institucional e mediática.
A Académica continua a ser um ativo emocional forte, com uma base de adeptos fiel, mobilizável e disposta a ir ao estádio, seja no Estádio Cidade de Coimbra, seja em deslocações a Mafra, Póvoa de Varzim, Amarante ou Santarém. Num futebol cada vez mais dependente de eventos excecionais, a Briosa mantém algo cada vez mais raro: regularidade de presença.
Este dado ganha ainda mais peso quando analisado à luz do que se passa no sistema português. A Liga 3 tem registado assistências que, em vários fins de semana, rivalizam ou superam jogos da 2.ª Liga, com a Académica a surgir repetidamente entre os encontros mais vistos do País, independentemente do escalão.
Não estamos a falar apenas de bons números para a Liga 3; estamos a falar de públicos que competem, em escala absoluta, com jogos de níveis superiores. Isto deve obrigar o futebol português a fazer uma reflexão séria: quando um clube deste perfil joga fora do centro do sistema durante tantos anos, não é apenas o clube que perde, é o produto global.
A época atual tem, naturalmente, um contexto específico. A Académica está envolvida na luta pela subida, o que aumenta o sentido de urgência e mobilização. Mas reduzir este fenómeno apenas à classificação seria um erro estratégico. A Briosa não regressa à relevância agora; mantém-na.
O que acontece é que só quando há uma possibilidade concreta de subida é que o sistema olha novamente para ela. E este é um padrão recorrente no futebol português: clubes históricos, com massa crítica e valor de marca, só voltam a existir quando ameaçam romper o teto competitivo que lhes foi imposto por anos de instabilidade.
Aqui está um clube fora das grandes ligas, com capacidade real de gerar ambiente, experiência e retenção semanal. Um clube que prova que o problema do futebol português não é apenas a falta de público; é a incapacidade de estruturar um sistema que valorize estes ativos enquanto eles se mantêm fora do topo.
A Académica não é exceção por existir; é exceção por resistir.
A pergunta que fica é simples e desconfortável: se a Académica consegue estas assistências na Liga 3, que tipo de produto poderia ajudar a construir se estivesse integrada num modelo mais estável, mais previsível e mais ambicioso?
O futebol português precisa de clubes assim não apenas para enriquecer classificações, mas para sustentar o ecossistema emocional que mantém o jogo vivo para lá dos três grandes. A Briosa está a fazer a sua parte, semana após semana, dentro e fora de casa. Cabe agora ao sistema perceber que o tamanho de um clube não se mede pela divisão onde joga, mas pela capacidade de mobilizar pessoas quando tudo à volta já desistiu.