_

Daniel Sá
Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

Depois de Ronaldo, quem vende Portugal ao mundo?

Portugal saiu do Mundial, mas a pergunta mais importante talvez não seja quando voltaremos a ganhar. A pergunta mais difícil é outra: depois de Cristiano Ronaldo, quem vende Portugal ao Mundo?

Durante mais de duas décadas, Portugal teve um privilégio raro no desporto global. Teve uma seleção com bons jogadores, grandes treinadores, clubes formadores e talento espalhado pelas principais ligas europeias. Mas teve, acima de tudo, uma marca planetária chamada Cristiano Ronaldo.

PUB

E isso mudou tudo. Ronaldo não foi apenas o melhor jogador português da sua geração. Foi o maior ativo de internacionalização do futebol português. Onde estava Ronaldo, estava Portugal. Onde aparecia Ronaldo, aparecia a camisola da Seleção. Onde se falava de Ronaldo, falava-se de um país pequeno que conseguiu produzir uma das maiores marcas individuais da história do desporto.

O estudo do IPAM sobre o valor da marca CR7 mostra bem a dimensão deste fenómeno. Em 2025, Cristiano Ronaldo atingiu um valor potencial de marca de 850 milhões de euros, o valor mais elevado de sempre desde que o IPAM acompanha esta avaliação. Em 2011, a marca valia 24,5 milhões; em 2020, 200 milhões; em 2025, 850 milhões. Não estamos a falar apenas de evolução. Estamos a falar de uma transformação económica e mediática brutal.

A dimensão digital ajuda a explicar parte desta força. Ronaldo ultrapassou os 1.000 milhões de seguidores nas redes sociais, sendo apresentado no estudo como a personalidade mais seguida do mundo. Só no Instagram, o estudo aponta para cerca de 648 milhões de seguidores; no Facebook, 170 milhões; no X, 114,5 milhões; no YouTube, 73,2 milhões.

PUB

Além disso, o número de pesquisas no Google passou de 56 milhões em 2020 para 187 milhões em 2025. Isto significa que Ronaldo deixou há muito de depender dos media tradicionais. Ele próprio é media. Ele próprio é plataforma. Ele próprio é canal de distribuição global.

É por isso que a discussão sobre o pós-Ronaldo não pode ser apenas desportiva. Não basta perguntar quem vai marcar golos. É preciso perguntar quem vai gerar atenção. Quem vai atrair patrocinadores. Quem vai vender camisolas. Quem vai colocar Portugal nas pesquisas, nos feeds, nas campanhas globais, nos conteúdos virais e nas conversas dos mercados que já não veem futebol apenas na televisão, mas em fragmentos permanentes de entretenimento digital.

Portugal tem jogadores extraordinários. Vitinha, João Neves, Nuno Mendes, Rafael Leão, Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Diogo Costa e tantos outros têm qualidade para manter a Seleção competitiva. Alguns jogam nos maiores clubes europeus, outros têm potencial para liderar a próxima década.

PUB

Mas há uma diferença entre ter grandes jogadores e ter uma marca global. A Seleção pode continuar forte dentro de campo e ficar mais fraca fora dele. Pode ganhar talento e perder alcance. Pode ter mais soluções táticas e menos magnetismo comercial.

O estudo do IPAM mostra que Ronaldo atinge 88 pontos no Sports Reputation Index, numa escala de 0 a 100, com pontuação máxima nas dimensões receitas e social media, 98 pontos na dimensão social e 91 pontos no palmarés. As dimensões menos pontuadas, media e impacto, são ainda assim elevadas, mas diminuem por estar atualmente numa liga periférica como a saudita.

Isto diz-nos uma coisa importante: mesmo afastado do centro competitivo europeu, Ronaldo continua a ser mais valioso do que quase todos os atletas que estão no centro do jogo.

PUB

Este é o verdadeiro problema para Portugal. Não existe sucessão natural para uma marca desta escala. A marca Ronaldo não se substitui por decreto, por talento ou por convocatória. Construiu-se com golos, títulos, rivalidades, disciplina, polémica, família, luxo, redes sociais, patrocinadores, recordes e uma obsessão permanente pela superação. Durante anos, Portugal beneficiou desse ativo sem talvez perceber completamente o seu valor estratégico.

Agora aproxima-se o momento em que a Seleção terá de vender-se sem o seu maior vendedor. E isso exige uma nova estratégia. A Federação, os patrocinadores, os clubes e os próprios jogadores precisam de perceber que o futuro da marca Portugal não pode depender apenas de um sucessor individual. Talvez não exista outro Ronaldo. Talvez o caminho seja construir uma marca coletiva mais forte, mais jovem, mais internacional, mais digital e mais preparada para disputar atenção num mercado global saturado.

Ronaldo colocou Portugal no mapa emocional do futebol mundial. A próxima geração tem talento para continuar a competir. Mas competir não chega. No desporto moderno, quem não comunica, desaparece. Quem não emociona, não fideliza. Quem não cria marca, perde valor.

PUB

Depois de Ronaldo, Portugal continuará a ter equipa. A dúvida é se continuará a ter Mundo.

Por Daniel Sá
9
Deixe o seu comentário
PUB
PUB