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Daniel Sá
Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

Ironman: o adepto que paga para competir

O IRONMAN Portugal-Cascais 2026 reuniu 5.500 atletas, provenientes de 96 países, e deverá ter gerado um impacto económico próximo dos 30 milhões de euros. Não estamos apenas perante uma competição. Estamos perante um modelo de negócio em que o consumidor paga para ser protagonista.

Durante décadas, a indústria do desporto concentrou-se no espectador. Vendia bilhetes, transmissões, publicidade e patrocínios a milhões de pessoas que pagavam para ver outros competir. Eventos como o IRONMAN inverteram essa lógica. Aqui, o cliente não compra um lugar na bancada. Compra o direito de sofrer durante horas.

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Em Cascais, 2.500 atletas inscreveram-se na distância completa e 3.000 no IRONMAN 70.3. Os primeiros pagaram entre 625 e 735 euros; os segundos, entre 325 e 415 euros. Só as inscrições terão, por isso, representado pelo menos 2,5 milhões de euros, antes de contabilizarmos viagens, equipamento, treino, alojamento ou alimentação.

Mas o participante não chega sozinho. Segundo o município, os 5.500 atletas trouxeram cerca de 20 mil familiares e amigos. No total, o evento terá mobilizado aproximadamente 25.500 pessoas, muitas das quais permaneceram vários dias na região. É aqui que uma prova desportiva se transforma num produto turístico.

Os 30 milhões de euros anunciados por Cascais equivalem a cerca de 5.450 euros por atleta inscrito. Este valor não deve ser confundido com despesa individual. Trata-se de uma estimativa agregada de impacto, que poderá incluir participantes, acompanhantes, organização e efeitos indiretos na economia. Sem acesso público à metodologia detalhada, o número deve ser interpretado com prudência. Mas a dimensão dos fluxos de consumo é evidente.

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Outros estudos ajudam a perceber o mecanismo. Nos Mundiais IRONMAN 70.3 realizados em Lahti, na Finlândia, os 5.500 participantes permaneceram, em média, 5,7 dias e viajaram acompanhados por 1,6 pessoas. O evento gerou 63 mil dormidas e um impacto económico igualmente estimado em cerca de 30 milhões de euros.

Em Cascais, o produto começa muito antes da partida. É preciso comprar bicicleta, fato, capacete, sapatilhas, nutrição, tecnologia e acompanhamento técnico. É necessário treinar durante meses e, por vezes, viajar previamente para reconhecer o percurso. Num estudo sobre o IRONMAN de Chattanooga, os participantes gastaram, em média, 1.598 dólares durante a estadia e 63% manifestaram intenção de regressar ao destino em lazer.

Não surpreende, por isso, que a marca esteja a crescer entre consumidores mais jovens. Em 2025, o circuito registou mais de 250 mil inscrições em 148 eventos. A participação de atletas com menos de 30 anos cresceu 35%, enquanto o número de estreantes aumentou 10%. Em Cascais, 3.073 pessoas participaram pela primeira vez na distância escolhida, mais de metade dos inscritos.

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Este modelo contém uma lição importante. Os consumidores já não querem apenas observar o desporto. Querem entrar na história, partilhar a preparação, superar um limite e regressar a casa com uma identidade nova. A medalha não distingue quem venceu. Certifica quem pertence.

Para Cascais, o resultado não se mede apenas pela chegada do primeiro atleta. Mede-se na ocupação dos hotéis, nas mesas dos restaurantes, no comércio local e na projeção internacional de um destino capaz de receber milhares de pessoas em torno de uma experiência extraordinária.

O futuro dos eventos desportivos poderá depender menos de quantos espectadores conseguem sentar numa bancada e mais de quantos consumidores convencem a entrar em jogo.

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Porque no IRONMAN o cliente não paga para ver o espetáculo. Paga para ser o espetáculo.

Por Daniel Sá
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