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Daniel Sá
Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O desporto deixou de competir com o desporto

Há uma mudança profunda na forma como o desporto é consumido que muitos ainda insistem em tratar como superficial ou de forma passageira. Não é.

 A nova geração não distingue competição de entretenimento. Para quem hoje tem menos de 30 anos, um jogo, um documentário, um creator a reagir, um videojogo, um highlight no TikTok ou um podcast de bastidores fazem parte do mesmo ecossistema de consumo. No mesmo ecrã. No mesmo feed. Com o mesmo tempo disponível. E isso obriga a repensar tudo: modelos de negócio, formatos, calendário, comunicação e até o próprio conceito de adepto.

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 Os dados internacionais confirmam esta rutura. Estudos recentes sobre comportamento de adeptos mostram que uma fatia significativa da geração Z não consome desporto prioritariamente em direto, mas sim através de clips, conteúdos curtos e narrativas paralelas. Em alguns mercados desenvolvidos, cerca de um em cada cinco jovens adeptos praticamente não vê jogos completos, mas acompanha atletas, histórias e momentos fora do campo com enorme intensidade.

 A ligação emocional deslocou-se da competição para o contexto. Não é o resultado que cria pertença, é a história. Não é o clube que garante fidelidade, é a relevância contínua no quotidiano digital.

 É por isso que alguns atletas se tornaram plataformas. Um jogador de topo pode ter mais seguidores do que a sua liga, mais engagement do que o seu clube e mais poder de influência do que muitos media tradicionais. Casos como os de atletas globais no futebol, na NBA ou na Fórmula 1 mostram isso de forma clara: a audiência segue pessoas, não estruturas.

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 As ligas perceberam e adaptaram-se. A Fórmula 1 deixou de ser apenas um campeonato para se tornar uma série contínua de eventos, stories e conteúdos híbridos, onde o espetáculo fora da pista é quase tão importante como a corrida. A NBA constrói a época em torno de momentos, personagens e cultura pop, misturando jogo, moda, música e redes sociais sem qualquer complexo. O desporto já não se apresenta como competição pura, mas como entretenimento cultural completo.

 Em Portugal, esta mudança ainda encontra muita resistência cultural. Continuamos a olhar para o desporto como se estivesse protegido por uma bolha emocional, onde a tradição resolve tudo. O futebol nacional vive muito de herança: escolhe-se um clube, quase sempre um dos três grandes, e essa escolha define a identidade.

 E enquanto os estádios continuam relativamente cheios nos grandes jogos, é fácil fingir que nada mudou. Mas esse modelo está a competir, cada vez mais, com um consumo fragmentado e global. Um jovem português pode ser adepto de um clube nacional, acompanhar a Champions por um clube estrangeiro, seguir um jogador específico nas redes, ver documentários no streaming e consumir análise através de creators. Na prática, o futebol português já não compete apenas com outros clubes portugueses. Compete com o algoritmo.

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 Isto tem consequências diretas no negócio. O tempo disponível é finito. Quando o desporto entra no mesmo pacote mental que séries, gaming, música e creators, deixa de ser prioritário por definição. Tem de conquistar atenção todos os dias. Tem de justificar a escolha. É por isso que as métricas que realmente crescem não são apenas audiências em direto, mas visualizações de clips, interações, tempo médio de consumo e retenção entre jogos. O problema é que muitos produtos desportivos continuam desenhados para o consumo semanal tradicional, ignorando que a batalha acontece diariamente no feed.

 As marcas já entenderam melhor esta realidade do que muitas organizações desportivas. O investimento está a deslocar-se para propriedades que conseguem ligar competição a cultura, dados a emoção, eventos a narrativa contínua. Um patrocínio que vive apenas do jogo de domingo é frágil. O que tem valor é a capacidade de gerar conteúdo antes, durante e depois, de integrar atletas, comunidade e storytelling, e de existir no mesmo espaço mental onde vivem os criadores de conteúdo e o entretenimento digital.

 A pergunta decisiva não é se o desporto é entretenimento. Sempre foi. A pergunta é se está disposto a competir como tal. Porque a nova geração já decidiu: não consome hierarquias, consome experiências. Não segue agendas, segue histórias. E não diferencia competição de entretenimento pois coloca tudo no mesmo feed e escolhe o que lhe dá mais sentido naquele momento.

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 Quem entender isto vai liderar o próximo ciclo.

Quem insistir em tratar o desporto como um mundo à parte continuará a jogar… sozinho.

Por Daniel Sá
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